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Soul(2020)

Há 2 meses | Animação, Aventura, Comédia, | 1h42min

De Pete Docter e Kemp Powers, com Jamie Foxx, Tina Fey, Graham Norton, e Angela Bassett


A Pixar já nos habituou a muita magia, momentos comoventes, e personagens que ganham vida para lá da própria história em que entram. Com Soul têm alguns destes ingredientes para nos oferecer, e mais um nível de profundidade que faz todo o sentido cavar nestes dias.

Joe (Jamie Foxx) é professor de música do 2º ciclo, com um desejo de ser músico de jazz a tempo inteiro. Depois de uma audição bem-sucedida no Half Note Club, finalmente consegue a sua chance de tocar piano com uma grande referência do jazz, Dorothea (Angela Bassett). No caminho para casa tem uma grande queda que separa a alma do seu corpo e é transportada para o mundo das almas, um mundo onde as almas que estão em transição para o além ajudam as que ainda não nasceram na Terra a encontrar o seu propósito. Joe torna-se mentor de 22 (Tina Fey), uma alma que está há milhares de anos a tentar encontrar o seu propósito para ir para a Terra sem que ninguém a tenha conseguido ajudar.

Os primeiros minutos de Soul são fascinantes, a animação é genial, com um realismo impressionante e uma riqueza no detalhe que associamos aos melhores filmes da Pixar. Seguimos Joe desde a sua frustração enquanto professor de música por não ter impacto nos seus alunos, até à sua oportunidade conquistada para cumprir o sonho de ser um músico de jazz como os que sempre admirou. O primeiro twist aparece logo de seguida, e é importante referi-lo porque altera bastante o rumo que a história parecia tomar. De uma história de um underdog de meia idade que consegue provar a tudo e todos que nunca é tarde para lutarmos pelos nossos sonhos, que teria tanto de bonita como de previsível, de repente somos transportados literalmente para uma dimensão diferente, bem mais profunda, que nos faz levantar questões menos confortáveis, mas provavelmente mais necessárias. Será que não passamos uma vida inteira à procura de um propósito que nos faça sentir especiais, e pelo caminho esquecemo-nos de apreciar o que já temos, de celebrar o milagre da vida? "A probabilidade de nascermos equivale à probabilidade de dois milhões de pessoas se reunirem para jogar dados com dados que têm um trilião de lados, e cada uma delas tirar o mesmo número no dado na primeira vez, por exemplo, 550343279001”. Li isto há uns dias, foi escrito pelo Dr. Ali Binazir, um escritor de transformação pessoal, e enquadra-se numa das mensagens deste filme. A beleza dos pormenores do quotidiano só depende da forma como olhamos para eles. Como encaramos a vida. Se em consciência com o que nos rodeia, ou noutro momento que não o agora.


Isto leva-me a uma reflexão sobre o público alvo deste filme. Está mais do que provado que filmes de animação são para toda a família, e todas as idades, como por exemplo aquele que é na minha opinião um dos melhores da última década, Inside Out (2015). Há até algumas semelhanças entre Soul e Inside Out, ambos viajam entre um mundo interior e o que conhecemos, com personagens que só existem em cada um dos mundos, mas influenciam o outro. No entanto, a diferença na complexidade deste filme, que nesse aspeto torna-se quase num Inception (2010) de animação, com camadas sobre camadas, e metade do filme a estimular o pensamento e reflexão. E está tudo certo, não fosse este filme ter como público alvo várias crianças que possivelmente não terão ainda idade suficiente para entender as mensagens subliminares e na verdade, as mais importantes, e arrisca não ter fatores de entretenimento suficientes para as manter interessadas até ao fim. Mesmo o tipo de humor usado, que é de muito bom gosto sem ser muito exuberante, por vezes usa referências de filósofos, e personalidades históricas que mesmo alguns adultos terão dificuldade em identificar, ou pelo menos chegar à lógica da piada.

Tem um elenco muito bem definido, com Jamie Foxx a demonstrar mais uma vez que é capaz de fazer tudo bem, transmitindo uma contenção própria da personagem (que está nos antípodas da personalidade conhecida do ator), passando uma vulnerabilidade e simplicidade perfeitas para Joe. Tina Fey é a lufada de ar fresco do filme, o portal de entrada para o humor, e fá-lo exemplarmente, sem surpresa, aliás tal como Graham Norton, o apresentador britânico deixa a sua marca com a energia que o caracteriza. Angela Bassett, Rachel House, e Donnell Rawlings comprovam também que com sensibilidade no casting tudo tem mais espaço para correr bem, e sim, num filme de animação isso também se aplica, não se trata só de dizer umas frases para um microfone num estúdio.

Esperemos que a discussão que agora existe em Portugal leve a um inevitável progresso, não só na responsabilidade para se respeitarem atores, como para se respeitar a representatividade. A cultura é um espelho da sociedade, se não é respeitada isso diz muito do longo caminho que temos a percorrer.

Em conclusão Soul é uma preciosidade técnica na animação recreando Nova Yorque, jazz e na imaginação para um universo novo, e representa uma mensagem mais do que bonita ou comovente, essencial e muito presente. Todos queremos ser felizes, e talvez o segredo para vivermos em paz esteja mesmo à frente dos nossos olhos.


Antony Sousa
Outros críticos:
 Rafael Félix:   9
 Pedro Horta:   9
 Alexandre Costa:   9
 Raquel Lopes:   9
 Guilherme Moura:   9
 João Iria:   8
 Sara Ló:   7
 Diana Neves:   8
 Carolina Mendonça:   9