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Coisa Mais Linda - 2ª Temporada(2020)

Há 22 dias | Drama, Romance, |

de Giuliano Cedroni e Heather Roth, com Maria Casadevall, Pathy Dejesus, Mel Lisboa, Fernanda Vasconcellos e Larissa Nunes.


“(Malu): Se os nossos sonhos não assustam a gente, é porque eles não são grandes o suficiente.”

 

Foi ao som dos intemporais, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, que Coisa Mais Linda regressou como num samba de bênção aos destaques da Netflix. Aclamada pelo diálogo audaz sobre empoderamento feminino que trouxe ao grande ecrã, Coisa Mais Linda é o retrato da vida de quatro mulheres no Rio de Janeiro durante o final da década de 50, tendo a ascensão da Bossa Nova como pano de fundo.

 

A ação inicia-se quando Malu (Maria Casadevall) acorda de um coma algum tempo depois de Augusto (Gustavo Vaz), ter disparado sobre si na noite de Ano Novo. A nossa protagonista desperta para duas dolorosas notícias que vêm abalar o mundo que havia conquistado: não só o seu ex-marido, Pedro (Kiko Bertholini), retornou ao Rio de Janeiro para se apoderar do agora tão famoso Coisa Mais Linda, como descobre que a sua amada melhor amiga, Lígia (Fernanda Vasconcellos), sucumbiu aos ferimentos provocados pela violência letal do marido, que continua a monte. Desolada com as perdas e mais uma derrota, Maria Luiza tenta encaixar-se no seu papel de mãe e mulher submissa, mas não por muito tempo, pois conta com Adélia (Pathy Dejesus) e Thereza (Mel Lisboa) para a impedir de cruzar os braços!

 

Coisa Mais Linda surpreendeu pela positiva, sobretudo porque se esperava algo no registo de telenovela brasileira e revelou-se precisamente o contrário. Tudo nesta série original da Netflix, capta a atenção do espetador: desde a fotografia linda e os planos coloridos que nos fazem sonhar com as praias do Rio de Janeiro; até à banda sonora incrível que homenageia o auge da cultura musical brasileira (e também internacional, fazendo várias menções a artistas femininas como Nina Simone e Ella Fitzgerald), contando com clássicos tropicais da Bossa Nova como Balanço Zona Sul, Garota de Ipanema e Este Seu Olhar. Isto para não falar da prestação magnífica do elenco, que por sua vez, é bastante diversificado e do guarda-roupa deslumbrante!


Posto isto, a segunda temporada veio confirmar o potencial do enredo, retratando um Brasil ainda patriarcal, desigual e conservador no início da década de 60 que, no entanto, se encontra numa explosão cultural e num momento de modificações históricas como a construção de Brasília. Coisa Mais Linda torna-se então um palco de disparidades e paradoxos, ao mesmo tempo que cria um diálogo, seja sobre questões raciais, desigualdade de género, violência doméstica ou até poliamor, e fá-lo com uma naturalidade e uma verdade que é difícil de alcançar – estes são temas ambíguos, difíceis de resolver e que, nem sempre são debatidos por representarem preconceitos que continuam bastante atuais.

 

Falando de uma forma um pouco mais particular, a prestação da atriz Mel Lisboa, ao longo desta última temporada, foi absolutamente estonteante. Ela dá da sua pele a Theresa, uma personagem muito forte, cuja evolução além de muito bem construída, ainda conta com uma intérprete extremamente versátil, que abraça, veste e desnuda a sua personagem com uma sinceridade própria de um grande talento e mulher.

 

De resto, a realização é brilhante e centrada embora dividida entre Caio Ortiz (O dia em que o Brasil esteve aqui, 2005) e Julia Rezende (Meu Passado me Condena, 2013), aliando assim uma fotografia que conta com paisagens exóticas e um elenco vestido a preceito a um argumento inteligente, ousado e fluído, que previne eficazmente que o enredo caia num melodrama excessivo.

 

Em jeito de conclusão, seria interessante que a série abordasse um pouco mais sobre o movimento da Bossa Nova e as suas raízes. Já que está impresso na identidade de Coisa Mais Linda e pode contribuir de uma forma tão enriquecedora, porque não? Claro que o foco da história são as nossas protagonistas – mas sendo assim, explorar a personagem de Chico (Leandro Lima) (que me lembra imenso Tom Jobim) e o seu percurso profissional como músico nesta altura e, não tanto, como par romântico de Maria Casadevall, seria uma opção envolvente e menos redutiva, já que, a meu ver, é o único papel que está a ser mal aproveitado, sobretudo quando representa uma geração de músicos inteira.

 

Combinando várias identidades musicais e correntes artísticas desde o samba do Morro ao jazz da América, Coisa Mais Linda cresce como uma narrativa empática sobre diversidade, culminando nas noites boémias do clube de música de Adélia e Maria Luiza. Afinal, a música é um objeto de união, uma das poucas coisas, infelizmente, que transcende género, raça e classes. Esta história é uma pintura bonita de cores e lutas, todas diferentes, todas legítimas, algumas intermináveis. Porém, a mensagem a reter é que existe sempre um lugar em que as diferenças são menores e a liberdade respira-se… ou canta-se.

 

Com discursos emotivos sobre mulheres e originais lindíssimos criados por João Erbetta, a segunda temporada de Coisa Mais Linda escolheu um rumo mais maduro e sensato, tornando impossível não nos revermos nas personagens e não sentir pelas suas batalhas diárias. Esta é daquelas que nos entra pelo coração adentro sem permissão.


Carolina Mendonça
Outros críticos:
 Margarida Nabais:   7Abrir
 Diana Neves:   8