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O Filme do Bruno Aleixo(2020)

Há um mês | Comédia, | 1h32min

de João Moreira e Pedro Santo, com Adriano Luz, Rogério Samora, José Raposo, João Lagarto, Fernando Alvim, e Gonçalo Waddington

 

Não durmas todo nú. A casa pode arder e depois ficas cá fora, pelado.”;

Nunca mijes para uma ficha de eletricidade. Mija antes para feridas tuas, ou de pessoas de quem gostes. É antisséptico”;

Não vás ao café do Aires. Uma vez trabalhei lá no Verão, e ele mexia todas as bebidas com a pila (...)”;

Estas pérolas de sabedoria popular não vêm da parte de um avô meu da Bairrada (eu nem sequer tenho família na Bairrada, mas para efeitos de exemplo, isto serve), ou de um qualquer primo em segundo ou terceiro grau de Castelo Branco (idem para isto), ainda que pudessem... Estes conselhos intemporais e incrivelmente úteis são, no entanto, da autoria de Bruno Aleixo.

Bruno Aleixo: parte ewook; parte cão; parte cidadão do mundo, e cem porcento português, dotado de um “tuguismo” muito familiar a todos, e que depois de inúmeras viagens de sucesso ao longo dos anos por meios de difusão que passam desde o Youtube, Instagram e Facebook, à Televisão, Rádio, Escrita, e até mesmo aos palcos, num sem-fim de formatos (“Os Conselhos Que Vos Deixo”; “O Programa do Aleixo”; “Aleixo no Brasil”; “Aleixo FM”; “Bruno Aleixo – Biografia não autorizada”, entre outros. A lista de formatos é extensa – e ainda bem! -), chega-nos “agora” (“agora” como quem diz: no ano que passou) ao cinema, no formato de uma incrivelmente inusitada comédia, com um molde inesperado, improvável, mas de sucesso, e que continua e expande sobre a tradição daquilo que é o “Bruno Aleixo” e a sua pandilha (Busto, Renato Alexandre, Homem do Bussaco, Seu Jaca, e o Nelso).

Ainda que eu seja realmente – uma das - pessoas mais suspeitas do mundo para falar do “Filme do Bruno Aleixo” (2020), por ser um fã acérrimo deste tipo muito particular de humor made in Portugal, da autoria de João Moreira e Pedro Santo, tendo surgido a oportunidade de escrever sobre este filme (que já tinha visto em cinema quando estrou), não pude deixar que a oportunidade me passasse ao lado, já que me dava uma boa oportunidade de rever o filme, agora com o devido distanciamento, e perceber se era efectivamente tão bom quanto me tinha parecido da primeira vez que o vi. E, tal como já imaginava: era – e é -, tão bom quanto me havia parecido da primeira vez que o vi!

Ainda que já conhecesse o filme e a história, o puro nonesense e não linearidade-linear da premissa continua a dar-lhe frescura e a fazer-me rir de uma forma constante. Aliás, parte da genialidade do filme assenta mesmo nessa tão bem pensada premissa, apresentada pelas próprias personagens do filme da forma mais coloquial do mundo: “(...) Ligou-me um homem que tem uma empresa que faz filmes. E quer que eu lhe faça um filme, lá para a empresa dele (...)”. Portanto, é assim que se gera o filme, que na verdade é um filme sobre filmes, feito por pessoas que gostam – e percebem – claramente muito de filmes, para outras pessoas que também gostam – e que podem ou não, perceber muito – de filmes. Um conjunto de “what ifs” sobre o que poderia ser um potencial filme do Bruno Aleixo, discutido numa mesa de café, explorando todos os lugares-comuns do audiovisual (cinema e televisão, não é pretensioso ao ponto de só escolher cinema) de produção nacional e internacional da forma mais descomprometida que se possa imaginar, na óptica de cinco pontos de vista muito diferentes, muito típicos, muito engraçados, e muito toscos.

Nestes tempos de pós-modernidade, em que apropriação reina, este filme é um dos melhores exemplos de “como o fazer bem”. Pega em fórmulas, construções, ideias e códigos – lá esta, os lugares comuns que há pouco referi -, com os quais crescemos, mas apresentam-nos sempre com um twist plausível e um toque naivecem porcento intencional quando o é – e improvável, acabando este esquema por nunca se tornar repetitivo (vi duas vezes, e via facilmente uma terceira. E aposto que me ria à mesma). Há sempre um ponto de vista crítico sobre o conteúdo que se predispõem a referenciar, mas nunca sério, nem nunca snob! E é isso que me agrada tanto nesta elaborada e divertida desconstrução do audiovisual: não se arma em chico-esperto, (ainda que as personagens tenham o seu quê de chico-espertismo, mas como estamos em Portugal, e são portugueses, quem nunca? E como não?!)! Falam de filmes como quem fala de futebol, porque estão no contexto perfeito para isso: no café. E isto é igualmente perfeito e familiar para o espectador, já que é uma realidade bem conhecida de qualquer português digno desse nome.

Temos novelas, temos noirs, temos thrillers, temos pornos, temos programas de televisão dos anos 90, temos publicidade! Temos também – e improvavelmente – actores (!), numa escolha de casting económica, mas perfeita: Adriano Luz, Rogério Samora, José Raposo, João Lagarto, Fernando Alvim, e Gonçalo Waddington, no papel de actores, a fazer de actores, a fazer de personagens, a fazer de actores (?) – confusos? Não fiquem: o meta incansável do filme nem aqui desliga, e isso é excelente! -. Nada dá mais gozo do que ver as personagens do universo do Bruno Aleixo a pensar em voz alta nas potenciais histórias, para o potencial filme, e nos potenciais actores para os potencialmente representar, com (preparem-se): dobragens perfeitas com as suas vozes, numa decisão de realização brilhante e que uma vez mais reforça a dimensão de matrioska gigante de autorreferenciação, self-awareness, e humor de todo o filme.

É claro que são autores que sabem bem do que falam, e que também se fizeram rodear de profissionais que – igualmente – sabem bem do que falam – e fazem -! A variedade de géneros é pretexto para um playground artístico gigantesco num pastiche visual, narrativo, e sonoro com um trabalho impecável da exploração de cada mood. Um logo de tv aqui, uma saturação acolá, uma gargalhada de lata no fundo, uma colorização diferente ali, uma batidela de prato no outro lado... É um trabalho super-económico e inteligente, mas sempre muito, muito eficaz – reforço é necessário porque o filme é mesmo muito, muito bom -, porque serve sempre a história da melhor forma.

Para terminar, e como já devem ter percebido, não tenho nenhuma critica a apontar a este filme. Não sei se isso faz de mim um critico menos bom, mas espero francamente que não. Simplesmente acho que o filme é uma comédia de tal forma diferente e bem construída que não lhe posso apontar nada.

Vejam o filme, e lembrem-se:

“(...) não vão ao café do Aires... (...)”. Já sabem o que é que ele faz.

Conselhos que vos deixo, não meus, mas do Bruno Aleixo.
O meu é só mesmo que vejam o filme, que vão dar umas valentes gargalhadas. Principalmente se gostarem mesmo de filmes e de televisão.


Marco Sardinha
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   7
 Sara Ló:   8