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On the Rocks(2020)

Há um mês | Aventura, Comédia, Drama, | 1h37min

de Sofia Coppola, com Bill Murray, Rashida Jones, Marlon Wayans e Jessica Henwick


On The Rocks é o filme recente, escrito e realizado pela Sofia Coppola, que estreou agora em outubro. É um filme aconchegante, mesmo a condizer com o outono. Não é uma obra excecional, sendo que na minha opinião, a autora tem outras de maior significância, como Marie Antoinette (2006) ou o nomeado nos Óscares, Lost In Translation (2003); mas tem os traços cinematográficos da realizadora, próprios de um cinema de autor.

De um ponto de vista feminino, o enredo segue a história de cumplicidade entre pai e filha. Recorrendo a dois dos seus atores habituais, Coppola desenvolve uma aventura paternal e ao mesmo tempo filial, misturando por vezes essas perspetivas na história, deixando-nos a questionar qual estamos a seguir, mas deixando sempre claro qual é a personagem principal. Esta é Laura (Rashida Jones), uma mãe de duas filhas com um casamento já de alguns anitos, e que começa a desconfiar da lealdade do marido, Dean (Marlon Wayans), que está sempre em viagens de negócios e desenvolve um comportamento estranho ao olhar de Laura (e, depois, acentuado pelas ideias do seu pai). Assim, pai e filha começam a investigar o que se passa na vida de Dean.

O pai de Laura, Felix, (que ganha a performance subtilmente cómica de Bill Murray) é um homem espontâneo, inteligente (que usa interpelações históricas para todas as situações), elegante, mas também descarado e indiscreto no que toca às mulheres. Porque, por força de uma ironia já conhecida, Felix não apoia o patriarcado, defende a liberdade e pujança das mulheres e tem o maior respeito pela filha; mas é um mulherengo de primeira que aproveita todas as ocasiões para se atirar a uma mulher ou falar do seu corpo. Porém, Coppola faz deste um mulherengo com classe, bem vestido, culto e discreto no seu geral. Laura, apesar de frustrações passadas familiares, parece lidar bem com o caráter do pai, dado que este é uma figura visivelmente protetora da filha e que não a quer deixar-se enganar pelo marido supostamente infiel (tal como ele foi em tempos). Para mim, Felix foi a personagem mais desenvolvida no filme e mais carismática.

A obra reflete preocupações típicas das mulheres, a necessidade de se ser honesto e comunicar com as pessoas, e como o ser humano tem modelos básicos de perceção e segue instintos que às vezes o enganam.

Este filme não foi exceção à cinematografia específica de Coppola. É isso que o faz uma obra deliciosa. A película tem uma dimensão visual muito forte; cada frame do filme é rico em cores diversas que atravessam uma paleta imensa e torna a fotografia do filme tão agradável ao olhar. Vão-se explorando vários close-ups, sobretudo em objetos, muito bem colocados em cada cena e que contribuem para atingir emoções mais elevadas e próximas da atriz principal. Típico nos filmes da realizadora, neste é possível ver também uma cena rápida numa piscina, mensagens escritas importantes, e a argumentista recorre também a várias passagens, com a lente da câmera a fornecer um campo de imagem em que as personagens refletem em janelas ou viagens de carro, num olhar preocupado.

Para além de uma ou outra cena exibicionista de um luxo próprio da elite nova-iorquina, o filme é abundante em sequências que patenteiam cenas de refeições, em restaurantes ou não, por vezes emocionalmente inquietas ou onde e quando se dão troca de ideias frutíferas.

Exemplo disso seriam os temas como o feminismo, o casamento, a evolução e o comportamento humanos, histórias pessoais ou a monogamia. O guião impera em toques de ideais e temas atuais que fazem refletir o espetador, mas que lhe permitem usufruir dessa reflexão momentânea sem perder o rumo da história e relacionar até esses assuntos com a própria vida pessoal.

On The Rocks é composto por uma narrativa que se pauta por referências temporais, com cenas repetitivas que nos permitem seguir o quotidiano de Laura e os seus pensamentos e o alongar do enredo (que, por vezes, até nos sufoca). Os planos abertos com paisagens citadinas, alternadas entre dia e noite, nevoeiro e sol, vão iniciando uma nova etapa da história.

O final tem um toque fraco e parece que quer apressar a história para acabar o filme. Não dá algumas justificações e soube-me a pouco. Precipitado e pobre. Todavia, os olhares mais atentos vão reparar num detalhe simbólico muito bem colocado, que irá fazer um paralelismo entre a relação de Laura com o pai e, por outro lado, com o seu marido. E que na minha opinião é dos melhores pormenores do filme.

Não é um filme empolgante, mas é bonito e terno. Acompanha as lições que pai e filha dão um ao outro no seu caminho de companheirismo relacional. É uma obra essencialmente calma e apaziguante, apesar do seu cerne supostamente inquietante. Tem um argumento completo e rico na sua passagem temporal, com personagens a dialogar num tom quase sempre sereno e hipnotizante.

Uma história banal sobre a vida, pautada por cenários citadinos, e o ponto de vista típico feminino, colorido e intimista de Sofia Coppola.  


Diana Neves
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   6
 Rafael Félix:   8