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Malcolm & Marie(2021)

Há 20 dias | drama, Romance, | 1h46min

De Sam Levinson, com Zendaya e John David Washington



Do criador de Euphoria (2019), com a colaboração próxima de Zendaya, actriz e produtora na série, e ainda o Protagonista de Tenet (2020) e BlacKkKansman (2018) John David Washington, este foi um filme realizado num contexto de pandemia, com todas as restrições inerentes a isso, e num tempo extremamente curto desde o desenvolvimento do argumento até à pós-produção. Foi também uma aposta pessoal deste trio, com investimento financeiro e temporal para darem vida a Malcolm & Marie, tendo depois entrado em cena a Netflix, que garantiu que os riscos haviam valido a pena.

Depois da grande estreia do seu filme mais recente Malcolm (John David Washington) chega a casa eufórico com a esperada recepção calorosa da crítica ao seu projecto de sonho, enquanto que Marie (Zendaya) tem muito mais a retirar sobre a noite que passaram do que o namorado imagina.

A premissa é esta. No fundo assistimos à discussão mais longa da história do cinema. Talvez por ter sido trabalhado em tão pouco tempo, considerando que se trata de uma longa-metragem, o argumento revela algumas inseguranças, que tentam ser mascaradas com riqueza de vocabulário, correndo o risco de soar presunçoso em determinados momentos, e menos natural noutros. Intelectualizar em demasia o que é entregue de forma tão emocional na comunicação, pode perder pontos na credibilidade. É difícil imaginar que numa noite se consigam articular todos os monólogos perfeitos para atirar ao parceiro ou parceira, e arranjar sempre forma de sair por cima, isto tudo sem se ser interrompido ou atropelado verbalmente pela outra pessoa, e ainda com bastante álcool à mistura para uma das personagens. Esses são os problemas que Malcolm & Marie nos oferecem. Agora que isto já saiu do papel para o vosso ecrã, vamos focar-nos em tudo o que faz deste filme uma experiência que não deixará ninguém indiferente, e que para o bem ou para o mal, será bastante falado por muito tempo.

Uma guerra nuclear de palavras entre dois egos, e ao mesmo tempo uma declaração de amor. Resumiria assim a montanha-russa de emoções que resulta da visualização deste filme. Mantém uma conversa acesa sobre relações, na sua complexidade perante diferentes contextos, representando uma luta pela paz entre duas pessoas que se amam, mas que apesar deste facto não podem garantir que são felizes. Gratidão é outro grande tema subliminar no argumento. No final de contas damos como garantido quem está do nosso lado? Encontra semelhanças nessa exploração amorosa de destruição e rancor, com Marriage Story (2019) e Revolutionary Road (2008), perdendo para estes na naturalidade dos diálogos e monólogos, mas acrescentando um elemento mais imprevisível e eléctrico em comparação. A crítica à crítica de cinema está muito presente também, expondo um conjunto de reflexões intensas sobre a nova relação da crítica com o racismo na indústria, e sobre a tentativa desesperada de algumas pessoas em mostrar que não são racistas, acabando muitas vezes por demonstrar uma mentalidade discriminatória que não desapareceu, só mudou de aspecto.

A fotografia faz de cada plano um quadro que enriquece o cenário de disputa do casal. A banda sonora estabelece novos rounds, com várias divisões da casa a servirem de ringue, indo de música do século XX até música corrente. A edição tem um papel importante na dinâmica que se pretende para nos manter ligados ao texto, com todo o enredo a passar-se numa casa só com duas pessoas, e consegue cumprir essa pretensão. O elenco é um duo, e como em qualquer par de protagonistas o todo do filme só funciona se os dois descobrirem e transmitirem uma química forte. É interessante ver como propositadamente descobriram essa dinâmica nos contrastes, com uma versão do Malcolm (sim porque nós só temos acesso a estas personagens numa noite muito específica, não podemos dizer que conhecemos estas pessoas verdadeiramente no final) mais excêntrica e explosiva, e uma versão de Marie mais contida e minuciosa, ganhando mais força no que não diz do que no que é dito, com a excepção de um monólogo em particular. Esta é sem dúvida uma oportunidade para dois actores empurrarem os seus limites e mostrarem serviço, e por aí é indiscutível que Zendaya e John David Washington aglomeram aqui material mais do que suficiente para criarem um novo showreel completo. Cada monólogo dá todo o espaço para brilharem, e em muitas cenas isso é conseguido, apesar de não se dar o caso de serem tão incríveis que não conseguimos imaginar mais ninguém nos seus lugares.

Malcolm & Marie vai ficar comigo mais tempo do que a pontuação indica, porque dentro de tudo o que ambicionou ser e não atingiu, tem uma carga emocional crua que deixa a nu muitos sentimentos e contradições que as paixões que vivemos nos fazem sentir. Vi dois actores com uma entrega total, e expondo-se em prol de algo em que acreditam, dando o melhor de si, sabendo que nos seus casos, certamente o melhor para eles, e para nós através deles, ainda está para vir. É um filme corajoso numa altura em que é preciso coragem para se enfrentar a realidade. E a ficção quando nos inspira a ser o que precisamos de ser no mundo real, merece crédito.


Antony Sousa
Outros críticos:
 Pedro Horta:   7
 Alexandre Costa:   8
 Diana Neves:   8
 Sara Ló:   7