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The Assistant(2020)

Há 2 meses | Drama, | 1h27min

de Kitty Green, com Julia Garner, Matthew Macfadyen, Makenzie Leigh, Kristine Froseth e Jon Orsini


O escândalo Harvey Weinsten e o subsequente movimento #MeToo ainda estão muito frescos em Hollywood. Desde o início do processo que abalou capital do cinema em 2017, já aparecerem inúmeras reportagens, documentários e filmes a expor cada uma das rodas dentadas de abuso sexual que faziam (e fazem) o mecanismo do showbiz funcionar. O novo trabalho de Kitty Green é mais uma dessas peças de exposição, mas num tom bastante diferente daqueles que se têm feito até agora.

Seguimos uma recém-chegada assistente de um poderoso produtor executivo da indústria do cinema, Jane (Julia Garner), enquanto ela se apercebe do tipo das situações que acontecem atrás da porta daquele escritório, onde há brincos perdidos, drogas e manchas suspeitas nos sofás.

Fugindo ao sensacionalismo e cobertura oleosa de Hollywood que é Bombshell (2019), The Assistant escolhe um caminho mais realista, com os seus prós e os seus contras.

Há uma série de decisões dão ao filme uma atmosfera muito desassossegada e desconfortável, como o facto de nunca vermos este tal executivo, nem sequer uma vez. Conhecemo-lo através dos seus gritos ao telefone, das pessoas que contrata e das coisas que Jane limpa do seu escritório, e não necessariamente através de diálogos martelados ou imagens chocantes.

Não. Tudo o que vemos está implícito e é isso mesmo que faz avançar a trama. A dúvida, o choque e o consentimento e normalização de comportamentos abusivos que vemos por todos à volta deste homem, tornam este espaço universal, porque esta lógica pode-se aplicar a qualquer setor de trabalho, não só à indústria do cinema. A isto também ajuda o facto dos sets serem do mais aborrecido possível, que aprofunda ainda mais ao realismo da coisa, e lhe retira aquela tal camada oleosa de Hollywood tão necessária a fazer este filme funcionar.

Posto isto, a realidade também traz um problema. O foco em tirar um snapshot do dia-a-dia num ambiente destes, não permite que haja uma particular evolução dramática, nem da narrativa em si, nem das próprias personagens. É uma questão difícil de contornar, e é complicado de arranjar formas de dar outro sentido de finalidade à história. Na verdade, é uma situação complexa e gostava de oferecer soluções para ela, porque ficar aqui a reclamar serve de pouco. Talvez seja não seja defeito, seja apenas feitio, e não há grande forma de contar esta história, com este objetivo, de forma diferente.

Dito isto, há muito para apreciar em The Assistant. Goste-se mais ou menos, é uma difícil ignorar o desconforto que nos faz sentir, provavelmente por se fazer mais real do que aquilo que gostaríamos. É um olhar diferente para um tema que tem sido batido e rebatido nos últimos anos e só isso já é imensamente louvável.


Rafael Félix
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