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Promising Young Woman(2020)

Há um mês | Crime, Drama, Thriller, | 1h53min

de Emerald Fennell, com Carey Mulligan, Bo Burnham, Laverne Cox, Alison Brie, e Alfred Molina


«De um mundo onde – quase - todos os homens são assholes, e onde uma ida a um bar se pode tornar no maior pesadelo de qualquer sleazeball, chega-nos: Promising Young Woman. Um filme onde a justiça é servida fria, com uma dose extra-cáustica de sociopatia e açúcar»

Antes sequer de começar a falar do filme – Promising Young Woman (2020) de Emerald Fennell: um “pequeno” preâmbulo – raramente tenho oportunidade de usar esta palavra, tive que aproveitar -:

Este filme é um filme que, - curiosamente, ou talvez nem tanto assim - me deixa a pensar mais sobre as implicações do filme, do que propriamente no filme. E porque é que me deixa a pensar mais nas implicações do filme do que propriamente no filme? Porque o filme é um animal delicado. É delicado porque está fortemente assente num tema e num conjunto de vivências que eu, na minha condição de não possuidor de vagina, nunca irei ter – “nunca digas nunca”, eu sei -. Questionei-me - demasiado frequentemente - se seria a pessoa certa para criticar o filme justamente por isto: “questões de parcialidade”. Será que o facto de eu ser homem altera a minha percepção do filme? Será que me consigo distanciar o suficiente para conseguir ser crítico deste filme, sem o criticar pelo conteúdo? Será que consigo manter-me minimamente imparcial para poder falar deste filme em particular já que “eu” sou objecto de escrutínio pelo filme? “Será que por eu ser homem a minha opinião vai ser automaticamente escrutinada justamente porque: sou homem?”; “Será que a opinião de uma mulher teria mais valor porque é mais relacionável?”; “Será que eu teria uma opinião diferente do filme se fosse mulher?”; “Será que deveria ter sido uma mulher a escrever esta crítica?”; Bom, a única coisa que realmente sei, é que são demasiados serás. Mas a conclusão a que acho que cheguei é de que, já que as questões de objectividade e parcialidade são sempre uma constante no acto de criticar, já que usamos sempre como ponto de referência as coisas que conhecemos e que vivemos, o facto de não ser mulher e sim ser homem, dá-me benefícios - e handicaps - para o que pode ser o entendimento deste filme (sei que já usei a palavra “filme” muitas vezes neste l-o-n-g-o parágrafo, mas vá, sejamos pacientes: já terminei).

E agora sim, com isto dito, vamos lá falar do filme:

Trata-se de um sugercoated, bubblegum, pop, wet-dream, que pinga sacarose, em todas as cores do millenial rainbow. É um misto de géneros, pelo que acho complicado o pôr numa caixa particular. Parte psychological thriller, parte (anti)rom-com, parte horror. Acho que posso dizer que se trata de uma “fábula feminista” – não porque os eventos sejam irreais, mas porque desde o primeiro momento do filme, que fico com a sensação de que que está para vir – directa ou indirectamente - uma punchline moral -. Spoiler alert: ela vem.

Visualmente, é um filme muito bonito – peço desculpa pela forma pouco eloquente de o descrever, mas para quê complicar? -: todos os enquadramentos são perfeitos e pensados ao pormenor. É um filme tão bonito, que gostaria bastante de poder imprimir vários stills e tê-los emoldurados na minha parede, porque sim: it’s that beautiful. Mas como são tantos, isto acabaria por ser financialmente incomportável. Há claramente um investimento muito grande no departamento de arte, e isso nota-se. É um trabalho invejável da directora de arte Liz Kloczkowski. Acho que a melhor comparação que se pode fazer neste departamento em relação a este tipo de investimento, são com os filmes do Wes Anderson, ainda que sejam esteticamente completamente diferentes.

É um filme encantador (não só pela fotografia e pela arte), e que me consegue deixar desconfortável cerca de 75% do tempo – 25% não, porque há momentos mais ligeiros. Mas não é por isso que deixa de ser um excelente filme. A realidade do filme é estilizada e estereotipada, com ligeiro híper-exagero em alguns aspectos, o que dá a este filme um certo desconforto surrealista, muito ao jeito do que se vê no trabalho da fotógrafa/filmmaker Nadia Lee Cohen, ainda que com motivos completamente diferentes, ou no Greener Grass (2019) de Jocelyn DeBoer e Dawn Luebbe. Acho que também posso dizer que é uma espécie de anti-The Stepford Wives (2001) de Frank Oz, porque rejeita a ideia de subserviência feminina. Convém não esquecer que isto é essencialmente um filme de emancipação, onde a personagem principal, a drop-out da faculdade de Medicina, Cassie (interpretada por Carey Mulligan), é uma vigilante astuta e amarga que, movida por um rancor a descobrir, procura dar lições a homens duvidosos na noite. Trata-se de uma protagonista cuja catarse nem sempre se vê alcançada de uma forma a que muitos especialistas da área da psicologia poderiam chamar de “saudável”, um bocado como o que acontece no Joker (2019) de Todd Philips. Mas sem ser um palhaço. E sem ter mommy e daddy issues.

Grande parte das situações que se desenrolam parecem ter sido transcritas da realidade, o que às vezes pode parecer demasiado estereotipado. Brinca muito com pré-conceitos, e é irónico e mordaz na forma como se serve dos diferentes elementos que servem a história. Há momentos em que o cinismo parece falar mais alto do que as restantes intenções, o que deixa – a mim pelo menos, deixou - um travo azedo a cinismoe atenção que eu próprio também sou cínico -. A história evolve de uma maneira inesperada e deixa-nos quase sempre na ignorância em relação ao que irá acontecer a seguir. Posto isto, tudo parece ser razoável dentro do que é a realidade desconfortável desta história, portanto, é aceitável que as coisas assim sejam: por mais improváveis que por vezes possam parecer. Alguns eventos parecem-me ser exagerados, ficcionalizados vá, porque há reações que, na minha condição de homem, sei que não são sempre assim... Mas acho que isto não é só porque sou homem.

Sei que há uma série de pressupostos que os leitores também vão fazer sobre aquilo que eu escrevi. Porque no final do dia, todos – tal como a realizadora, tal como este filme, e tal como eu -, trabalhamos com pressupostos. Porque todos somos – de uma forma ou de outra -, parciais. E é porque é isso que – em parte -, nos ajuda a fazer sentido do mundo.

Imparcialidade é um mito, amigos.

Abracem-na e sejam felizes.

Tanto quanto eu fui ao ver este filme pouco ortodoxo que ainda assim: ticks all the boxes.

Excepto quando via o pescoço da Carey Mulligan que, por não me parecer de alguém com 30 anos, me tirava a suspension of belief, e por consequente do filme, em vários momentos. Mas é um filme mesmo muito interessante, e diferente. E não é só para mulheres: é para o menino, e para a menina. Vejam. Mesmo.


Marco Sardinha
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   9
 Sara Ló:   8
 Rafael Félix:   9
 João Iria:   8
 Pedro Horta:   7
 Antony Sousa:   9