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Train to Busan(2016)

Há 2 meses | Ação, Horror, Thriller, | 1h58min

de Sang-ho Yeon, com Yoo Gong, Yu-mi Jung, Dong-seok Ma, Woo-sik Choi e Sohee


Desde que George A. Romero popularizou e desconstruiu o terror zombie com Night of the Living Dead (1968) que o comentário social ficou imbuído neste como uma adição natural. Um resultado curioso tendo em conta que os antagonistas deste clássico são classificados como ghouls (espíritos) e na mente do realizador, nunca existiu qualquer intenção de usar mortos vivos. O termo foi assim redefinido no cinema, com uma nova seleção de regras e elementos associados ao género.  

Nos últimos anos temos visto este sistema em constantes alterações como forma de surpreender a audiência. O remake de Dawn of the Dead (2004) atribuiu redbull aos zombies a um extremo em que estes conseguiam alcançar o Usain Bolt. The Walking Dead (2010-) transmitiu estes para a televisão e durante este período, os defuntos esfomeados reinaram. Entre os sucessos, é inevitável esquecer que a maioria destas histórias caíam mortas mesmo sem um tiro na cabeça, com exceção das várias comédias que mantiveram o batimento cardíaco a pulsar.   

Train to Busan (2016) pertence a um desses êxitos. O primeiro live action do realizador Sang-ho Yeon, numa espécie de sequela do seu filme de animação Seoul Station (2016). Seok-woo (Yoo Gong) é um pai divorciado que se dedica ao trabalho, como Gestor de Fundos, deixando a sua filha, Su-an (Su-an Kim) de parte, até no seu aniversário. O seu único desejo é visitar a sua mãe, em Busan, uma prenda que Seok-woo concede, involuntariamente. Durante a viagem de comboio, percebem que o caos se instalou pelo país inteiro e deparam-se presos num transporte em movimento, com um vírus perigoso a instalar-se rapidamente pelos passageiros.  

O melhor desta categoria tende a ocorrer em tempos de corrupção humana ou fragilidade. Em 2015, a Coreia do Sul lidava com a epidemia MERS e um descontentamento com a corrupção política e as vastas diferenças económicas. Assim, compreendemos a representação do governo em Train to Busan, onde um oficial assegura os cidadãos da segurança do país, enquanto cidades ardem em anarquia.  

Seguindo o exemplo dos clássicos, Sang-ho explora uma mensagem relevante para a atualidade, como o egoísmo social e a descriminação económica. Durante o progresso da história, encontramos momentos em que as personagens podiam ser salvas se optassem por ignorar os seus piores instintos. Alarmados pela entrada de um sem-abrigo no comboio, contudo, descartando a jovem rapariga com veias prestes a explodir, semelhantes a um wrestler reformado.  

Train to Busan é uma narrativa derivativa de diferentes géneros e ideias exploradas noutros filmes com resultados mais provocativos. O comentário social é desprovido da subtileza ou a farsa cómica a que muitos outros realizadores Sul-Coreanos nos habituaram e não acrescenta um conceito novo. O seu sucesso provém de saber como caracterizar esta história de uma maneira que se sente original, ainda que não seja. Providenciando uma imagem repetida e intensificando esta até à pertinência.  

Infetado com uma realização repleta de energia frenética e um ritmo que, desde a sua primeira dentada até ao último suspiro, segue o exemplo destes mortos vivos e aumenta a velocidade, limitando as pausas para somente o necessário, esta nova entrada numa lista infindável de filmes sobre zombies, captura o essencial destes enredos ao favorecer a nossa ligação com as personagens.

A realização cuidadosa carrega o suspense com um excelente build up até o grande momento revelado em planos que salientam o terror da situação e dos seus vilões de olhos brancos, aproveitando ao absoluto os cenários limitados sem alguma vez descer na sua intensidade ou perder a emoção. Uma coreografia de ação impecável que nos deixa absorvidos pelo filme, ignorando os seus lapsos lógicos como a rápida evolução de pessoas comuns para incríveis lutadores de mortos vivos em esteroides.  

background em animação do realizador funciona como uma dádiva e ao mesmo tempo prejudica a impetuosidade deste. O CGI aproxima-se dos grandes e deslumbra tanto quanto contamina instantes pavorosos com efeitos semelhantes a um cartoon, em que faltava apenas inserir um efeito sonoro de bowling. Uma visão habituada aos exageros visuais e à suspensão de descrença habita agora um mundo em que devia existir visão periférica e apesar da sua eficácia em criar terror, o terceiro ato é disruptivo momentaneamente por uma overdose de drama que evaporou as minhas lágrimas num suspiro desapontado. Felizmente, a sua execução engenhosa de storytelling mantém-se acima destas desvantagens e o final permanece completamente satisfatório. 

Quando um género revela a sua debilidade, o foco principal caminha pela maneira de reinventar este ao alterar as regras para manter o elemento de surpresa vivo nas audiências, priorizando o medo e esquecendo que o mais importante não são os zombies, mas os humanos. Night of the Living Dead permanece um clássico embora ninguém grite com medo pelas suas imagens, pois o que perdura na memória são os protagonistas trágicos e a relevância dos seus temas. O remake de Dawn of the Dead reinventou as criaturas, todavia, quem se recorda do resto?

Train to Busan compreende a natureza deste cinema. Uma história sobre sacrifício em benefício dos outros, familiares ou desconhecidos, onde nos importamos com as personagens, mesmo não sendo exploradas com maior afinidade. Existe a consciência que estes enredos descarrilam em esquecimento se não houver emoção ou temas fundamentais a pontificar. Nenhuma sociedade opera sem colaboração ou sacrifício e nenhum filme de zombies funciona sem personagens que queiramos proteger.


João Iria
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   8
 Rafael Félix:   7