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Learning to Skateboard in a Warzone (If You're a Girl)(2019)

Há 25 dias | Documentário, Curta, Desporto, | 0h39min

de Carol Dysinger, com Fatima e Kashida


Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl) destacou-se em 2019 como o maior vencedor da ronda de prémios na categoria de melhor documentário de curta-metragem. A melhor maneira que encontro de descrever a obra vem da respetiva realizadora que, no seu discurso de agradecimento pelo Óscar, confessou que era uma “carta de amor às raparigas daquele país”.

E esse país de que falava era nem mais nem menos que o Afeganistão, um dos sítios considerados mais perigosos para se ser mulher e onde a própria cineasta, Carol Dysinger, trabalha desde 2005. O foco, neste caso, é a experiência de um grupo de raparigas naturais da cidade de Kabul que, ao abrigo da organização sem fins lucrativos “Skateistan”, têm aulas onde aprendem matemática, a ler, escrever e, talvez menos convencionalmente, a andar de skate.

A já mencionada familiaridade da realizadora com a realidade vivida diariamente pelas jovens é, sem dúvida nenhuma, uma mais-valia. Não é óbvia, mas nota-se em toques subtis que acabam por ser bastante importantes. A simples introdução, constituída por um plano-sequência ao longo de uma rua comum na qual homem após homem olha incredulamente para a câmara, é um ótimo exemplo disto.

É na representação destas situações que aparentam ser banais que a obra nos dá uma sensação, tanto quanto é possível, do quotidiano afegão. Contudo, não cai no erro de reduzir as entrevistadas simplesmente à posição de vítimas. Porque sim, estas mulheres e raparigas são vítimas da realidade que as rodeia, que frequentemente lhes nega tantos direitos fundamentais, mas não é isso que as define. As suas personalidades não começam ou acabam aí. Também riem, têm as suas próprias aspirações e é precisamente esta humanização que remata o documentário para tão perto do coração.

 A nível técnico, nem a cinematografia nem a banda sonora se destacam particularmente. No entanto, sinto que independentemente disto o valor de Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl) já estaria inerentemente noutros campos. As entrevistas são realizadas de uma maneira honesta e cada uma inserida de um modo muito inteligente na sua estrutura, metaforicamente dividida por cada uma das fases de aprender a andar de skate.

As maiores críticas que tenho a fazer estão diretamente relacionadas, lamentavelmente, pelo próprio facto de ser uma curta-metragem. Por vezes, são mencionados certos eventos ou momentos específicos da história contemporânea do país. Todavia, talvez por não haver tempo suficiente para os explicar devidamente, acabam por ser demasiado passageiros e não servir qualquer propósito. Além disto, por ser um documentário tão breve, mais curto que muitos episódios de diversas séries, limita a sua esfera de alcance. Portanto, ao chegar ao fim acabamos por sentir que falta qualquer coisa. Queria saber mais, ver mais, aprender mais.

Ainda assim, é uma história que não me vou esquecer assim tão cedo. Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl) é, por falta de melhor palavra, um lembrete importante e torna-se simultaneamente inspirador e triste ao retratar intimamente uma realidade que não pode ser nem esquecida, nem ignorada. 


Margarida Nabais
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