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Summerland(2020)

Há um mês | Drama, Romance, Guerra, | 1h40min

de Jessica Swale, com Gemma Arterton, Gugu Mbtha-Raw, Lucas Bond, Dixie Egerickx e Tom Courtenay



“(Alice): It (heaven) was made up by the christians to make themselves feel better.

(Frank): How do you know?

(Alice): Because if it was true, what happened to all the people that died before the christians? Where did their souls go? Summerland.”

 

Há cerca de 3,7 milhões de anos atrás, o Homem deu, literalmente, o seu primeiro grande passo em direção à humanidade que conhecemos hoje – tornou-se bípede. Esta transformação ao nível da postura arrumou espaço para tantas outras, sobretudo, no que toca ao espírito – descobriu-se o fogo, fabricaram-se instrumentos e ferramentas e os humanos passaram a cobrir-se. Sabendo que, em princípio, todos conhecem a história da evolução, o ponto a que eu quero chegar é o seguinte: a distância que o Homem adquiriu com esta mudança, permitiu-lhe adotar a posição contemplativa necessária não só para evoluir e encontrar formas novas e diferentes de sobreviver, mas também para começar a interrogar-se sobre aquilo que o rodeava e até sobre aquilo que não conseguia ver. Assim, criaram-se os mitos, as lendas e as religiões. Entre elas, existe a Wicca, uma religião neopagã que acredita na reencarnação e que, tal como todas as outras, tenta responder à questão: “O que acontece a seguir?”. Pois bem, para eles, depois da morte, vamos para um lugar incorpóreo, espiritual, onde esperamos, pacientemente, pela nossa próxima vida física. Um lugar onde correm rios cristalinos e o verão perpetua-se em campos de flores perfumadas – Summerland.

Envergando, deliciosamente, esta estética mítica e estival durante os seus 99 minutos, Summerland, estreada nas salas de cinema no verão passado (como não podia deixar de ser), é a primeira longa-metragem realizada pela dramaturga e argumentista, Jessica Swale, distinguida nos Olivier Award em 2016 com a sua peça Nell Gwynn (cuja personagem principal foi interpretada tanto por Gemma Arterton como por Gugu Mbtha-Raw, protagonistas neste filme).

A ação do enredo deambula, maioritariamente, pela costa verdejante do Kent, no sudoeste da Grã-Bretanha aquando da Segunda Guerra Mundial. Alice Lamb (Gemma Arterton, Murder Mystery) é, aquilo a que se chama, uma jovem envelhecida que aprecia a solidão do seu chalé enquanto fuma e datilografa os seus trabalhos académicos sobre mitos e lendas de folclore, que procura cientificamente desvendar – como a Summerland e o efeito de Fata Morgana. Talvez por não ser casada, estudar matérias conspirativas e vestir um humor azedo que lhe é habitual, Alice é olhada com desconfiança por parte dos seus conterrâneos que, por mais irónico que soe, acreditam piamente que esta seja bruxa (ou uma espia alemã).

Tudo isto muda quando Frank (Lucas Bond), um miúdo de 10 anos, é evacuado da insegurança de Londres e deixado por uma assistente social à sua porta – “We’ve all got to do our bit” – diz ela, entregando-o à sua guarda. Alice que, como percebemos desde os primeiros momentos do filme, não nutre uma especial afetividade por crianças, tenta, desde logo, rejeitá-lo em todos os sentidos possíveis da palavra – embora, sem sucesso. Frank, com o seu sorriso malandro, olhos curiosos e perspicácia, consegue, ternamente, desenterrar as memórias e sentimentos mais profundos de Miss Lamb, acompanhando-a, assim, na redescoberta da sua identidade, enquanto procuram a próxima vida nos céus.

“All stories have to come from somewhere” – é este o pressuposto e o alimento mestre de Summerland – todas as histórias têm a sua razão de ser. Não podemos dissociar o passado do presente, da mesma forma, que não podemos eliminar as vivências da nossa forma de ver o mundo. Jessica Swale cultiva esta ideia de herança e experiência, subtilmente, entre as diversas camadas narrativas e visuais em que Summerland é rico. Nada neste filme está lá por acaso: o conflito entre o ceticismo e o sobrenatural; o panorama rústico que se ergue junto ao mar, em contraste, com uma capital destruída; o elo entre as personagens que se interligam direta ou indiretamente; a desarrumação de uma casa eremítica e o verdadeiro caos que tenta esconder – todos estes elementos antítipos conferem um realismo-mágico à obra que a torna não só credível, como um deleite para os olhos.

Gemma Arterton oferece-nos uma prestação maravilhosa, prendendo-nos ao ecrã do princípio ao fim com o temperamento difícil de Alice, que parece ter sido desenhada à sua medida. Para mim, nada como uma protagonista feminina que se distingue pela sua inteligência e por viver “à frente do seu tempo”. O facto de esta, em concreto, ter um feitio quase intragável que, mais tarde, é desmistificado, é só a cereja no topo do bolo. Alice Lamb é a personificação perfeita do que é ser alguém que sente muito e pensa demais, num cosmos em que nada, nem ninguém é imortal; e, numa sociedade que nem sempre aceita o que é diferente – sobretudo, se formos mulher. A guerra interior com que ela se debate, ao longo do filme, é das questões mais bonitas do enredo. Esconde-se atrás da frieza e de uma independência quase autoimposta, na esperança de esquecer as fragilidades do seu coração – a perda do pai e o romance proibido que viveu com Vera (Gugu Mbtha-Raw), nos anos 20. Tenta ao máximo manter-se afastada de Frank, quando, no fundo, é-lhe impossível não se preocupar com a criança. E o mais importante – ostenta uma alma antiquada e um ar carregado em oposição a um processamento emotivo disfuncional e, talvez, imaturo. Mantém-se isolada dos outros e de si mesma, com medo de se magoar novamente. Assim, também nós, espectadores, nos deparamos com a pergunta: “Ser realista ou ceder ao romantismo?”.

Um dos maiores trunfos de Summerland mora nas mãos de Laurie Rose, responsável pela fotografia e direção de imagem que, utilizando um jogo pertinente entre graduação de cores e luz natural, consegue transformar os momentos mais simples do filme em acessos ao mundo fantástico. A verdade é que, apesar de esta história se passar nos entretantos da Segunda Guerra Mundial, que, como todos sabemos, é um episódio trágico, todo o ambiente que envolve a ação é de tal forma, leve e quente e florido, que acabamos por sentir que estamos mesmo na Summerland dos Wicca e não no Kent. Adicionando a esta fórmula, uma banda sonora original criada pelo alemão, Volker Bertelmann, que parece saída de um filme de fantasia para crianças, obtemos um efeito dreamlike que nos envolve na vida e nas memórias dos personagens.

Para terminar, é de se realçar a atuação de Tom Courtenay que, enquanto diretor da escola onde Frank estuda, concede alguns dos momentos mais engraçados da película, ao mesmo tempo, que nos conforta com alguma sabedoria e paciência. Também Lucas Bond e Dixie Egerickx, nos papéis infantis, revelam a empatia de quem tem um caminho muito promissor pela frente.

Acreditando que as opiniões sobre o fim não serão consensuais, Summerland é uma obra frutífera que não tem medo do diálogo e da diversidade. Abraça os reinos do épico, do romantismo, do naturalismo (até do niilismo, para quem o assim interpretar), sem nunca tirar os pés do chão. Tenho a certeza que, um dia, será um daqueles romances clássicos que vemos quando queremos chorar. 


Carolina Mendonça
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