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Be Water(2020)

Há um mês | Documental, Documentário, | 1h37min

de Bao Nguyen, com Bruce Lee, Shanon Lee, e Kareem Abdul-Jabbar

 

Um documentário sobre Bruce Lee significa que vamos assistir a uma exposição de assuntos que por si só dariam um documentário próprio, o que nos leva a pensar que talvez uma série documental funcionaria melhor para explorar toda a complexidade do que rodeou e incorporou a vida da carismática personalidade. Ainda assim, também significa que vamos sair mais ricos e inspirados no final do filme do que éramos e estávamos antes de o visualizar.

Be Water navega sobretudo entre 1960 e 1973, período que abrange a chegada de Lee aos Estados Unidos, passando pelos êxitos conquistados em Hong Kong, chegando ao momento da sua morte inesperada. Discriminação, racismo, determinação, resiliência, carisma, filosofia, história, humanidade, cabe tudo neste documentário da ESPN.

Todos temos uma ideia de quem foi Bruce Lee, sobretudo associada às artes marciais, ou porventura mais aprofundada para quem já viu Dragon: The Bruce Lee Story (1993), mas esta é a oportunidade para expandirmos o conhecimento e nos deixarmos inspirar pelo retrato mais íntimo de quem foi um homem nitidamente à frente do seu tempo, disposto a quebrar preconceitos através do exemplo, numa representação de resiliência e crença em si mesmo que nos faz poupar dezenas de euros em livros de autoajuda.

Chegando a Seattle com 100 dólares no bolso ainda com 18 anos, imediatamente fez pela vida e em pouco tempo criou a semente daquele que se tornou no seu primeiro foco principal, espalhar a arte do kung-fu em escolas por todo o país. Já por aqui temos a perceção de que se tratava de alguém com uma enorme autoconfiança, e sem medo de sonhar alto, mesmo sentindo na pele a discriminação por ser chinês, apesar de ter nascido em São Francisco (Estados Unidos). Tudo o que se seguiu só alargou o seu propósito, só alimentou a sua determinação, e só o fez querer vingar através do conhecimento, por si e pelas suas origens. Só uma mente quase impenetrável se permitia a lutar por tanto, querendo ter o seu lugar em Hollywood e abrir portas para uma representação da sua cultura no cinema e televisão que fosse condizente com a realidade, e não uma anedota constante contada por norte-americanos.

Aqui entramos num tema circundante do filme, o centro é sempre Bruce Lee, mas factos históricos de racismo estão sempre presentes por serem uma parte essencial para se contar o todo de uma forma verdadeira e profunda. Há referências a Martin Luther King Jr. e Muhammad Ali, que nos situam no cenário de reivindicação de direitos básicos cívicos e humanos no país e que, olhando em retrospetiva, não existia na indústria do cinema e televisão. É um problema que ainda hoje persiste teimosamente (e que não se resume aos Estados Unidos), e que Lee procurou contrariar. Rejeitou uma carreira carregada de papéis estereotipados da cultura asiática, batalhando para fazer valer as suas ideias, sempre abrindo espaço para o diálogo e compreensão. Quando isso lhe foi negado, teve humildade para regressar a Hong Kong e construir de raiz o nome que queria bordado a ouro na história dos filmes de artes marciais, tornando-se num ícone nacional e internacional, não tardando a ter uma segunda oportunidade na terra de todos os sonhos. Infelizmente, não viveu para absorver tudo o que os filmes que filmou no início dos anos 70 vieram a representar para milhões de pessoas, mas viveu para deixar o legado com o qual sonhou. 

O dilema que encontro em Be Water é o mesmo que enfrento nesta crítica, há muitos caminhos e poucos chegam até ao seu destino. Havia estrada para mais, daí sugerir no início que uma série documental funcionaria melhor para a quantidade de material disponível e de temas abordados. Pontualmente somos transportados para os pensamentos mais profundos e particulares que Lee tinha consigo e com a família que construiu, num dos aspetos mais bonitos da obra, com Shannon Lee (filha de Bruce) a ler várias cartas que foram escritas pelo pai, revelando uma postura de reflexão sobre a vida e o que o rodeia, que aumenta a nossa curiosidade sobre a mente da pessoa por trás da figura e do mito, ou até do que foi a última imagem transposta para cinema sobre ele, no filme Once Upon a Time... In Hollywood (2019). Numa fase final da sua vida encontrou maior abertura em entrevistas para comunicar um pouco da sua sabedoria, mas não chegamos a ir ao fundo nessa versão de consciência e introspeção que existia, tendo em conta que o próprio título é referente a uma expressão filosófica.

O melhor a fazer é mesmo ver o documentário no site da ESPN e deixarmos que o impacto do que vimos crie as réplicas necessárias para alimentarmos a curiosidade. Usarmos isso a nosso favor, procurando mais informação, mais conhecimento, para que mais facilmente possamos compreender-nos e aos outros, reforçando tolerância, empatia, e combatendo ignorância. Tal como o legado de Bruce Lee atingiu milhões de pessoas após a sua morte prematura, este filme pode atingir o seu objetivo após o seu final. Que possamos todos beber da coragem que transbordava do ator, atleta, pensador, homem, para que quando nos tentarem menosprezar tenhamos o discernimento de dizer "be water my friend".


Antony Sousa
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