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Ma Rainey's Black Bottom(2020)

Há 2 meses | Drama, Musical, | 1h34min

De George C. Wolfe, com Viola Davis, Chadwick Boseman, Colman Domingo



Ma Rainey´s Black Bottom deu-me uma experiência diferente enquanto filme. Baseado na peça de August Wilson, o filme passa-se num só dia e maioritariamente nos mesmos dois cenários, com um número reduzido de personagens. Porém devo dizer que não me desiludiu.

Realizado por George C. Wolfe, e produzido por Denzel Washinghton, é o segundo filme que vejo que se baseia na escrita do dramaturgo August Wilson que abraça e elabora projetos especialmente com olho na história e na experiência dos afro-americanos no Estados Unidos.  

O filme passa-se em 1927, em Chicago, quando Ma Rainey e a sua banda vão gravar um disco na Paramount Recording Studios. Desde já é de elogiar os figurinos: toda a maquilhagem e a própria figura de Ma encarnada por Viola Davis está muito bem representada; e desde aos figurantes até aos fatos dos elementos da banda parece tudo escolhido ao pormenor para se fazer adequar no mais possível à realidade. A fotografia absorve-nos e parece que ate cansa o olhar: o céu branco que reforça o calor que se sentia, a cidade cheia de fumo, o suor, os cenários beges e castanhos, dão todo um tom uniforme ao filme, que se contrasta com o peso dos temas retratados e ate com a personalidade dos personagens.

Viola Davis esta mais uma vez, e não era para admirar, brilhante no seu papel enquanto Ma Rainey. Embebeda-nos com a sua voz quase rouca e poderosa, usa todo o seu figurino com segurança e perspicácia. Ma Rainey é uma autêntica diva, ousada, às vezes mandona e arrogante, mas porque quer fazer os outros saber que merece respeito, ela e a sua música.  Por vezes torna-se mesmo irreconhecível a atriz que esta por trás do papel. E assim sabemos que Davis fez o seu bom trabalho. Não se importa apenas em representar uma figura importante da música (Ma Rainey é considerada a mãe do blues), como de carregar todo um peso emocional daquilo que é afinal, também o seu passado histórico e cultural. Chadwick Boseman – a quem o filme foi dedicado –, interpreta Levee, foi também muito elogiado pelos grandes críticos. Teve uma performance esmagadora, com monólogos muito profundos que sustentam dos momentos mais pesados da longa metragem. Para além disso, teve uma versatilidade e uma conexão singulares com os restantes atores que interpretavam os outros elementos da banda, Colman Domingo, Glynn Turman e Michael Potts, articularam-se muito bem e fizeram dai resultar diálogos que mostravam a simplicidade do quotidiano realmente de uma banda nos anos 20, em plenos ensaios. Em certo ponto, estes diálogos fizeram-me lembrar os do filme Fences (2016), não fossem estes escritos pelo mesmo autor… tanto num filme como outro, há uma inteligibilidade na clareza destes diálogos sinceros e naturais que chama a atenção ao mínimo pormenor.

É todo um projeto muito bem desenhado e conseguido. Vi também um curtíssimo documentário sobre a produção do filme, Ma Rainey´s Black Bottom: A Legacy Brought To The Screen, que me esclareceu sobre vários pontos de vista tomados ao longo do filme e foi essencial para perceber os vários objetivos que estavam expostos nesta obra.

Desde já fazer realçar a postura de Ma Rainey, que comparada a outras cantoras como Bessie Smith, tinha uma imagem e uma forma de ser peculiar, sempre com a premissa de honrar o blues. Este acompanhou a experiência dos afro-americanos nos Estados Unidos, no seu movimento pelos direitos civis e pelo fim da segregação. Faz parte das origens de todos os negros cuja história os levou de África ao Norte da América e lhes tirou tanto. O filme também faz questão de realçar o período da Grande Migração, quando os negros se deslocaram do sul para o norte com a esperança de uma melhor vida, mas lá só encontraram mais dificuldades e obstáculos. A questão dos discos raciais afetou muitos artistas negros: Ma Rainey sabia que executivos brancos só queriam a voz dela para fazer dinheiro, o seu mérito como artista não interessava visto que era negra; e Levee tinha a ambição de compor canções e formar a sua banda, mas os estúdios naos e interessaram por ele nem o seu trabalho. O fim desta personagem é trágico, à semelhança do peso psicológico que transportava e é das cenas cruciais no filme.

Todo o filme é portador de significados profundos e faz questão de relembrar que é preciso contar a história daqueles que não tiveram voz para a contar e que foram discriminados, nem que seja só relembrá-los. Esta obra faz uma homenagem ao blues e a uma parte daquilo que foi o sofrimento dos negros no país «onde os sonhos se concretizam».


Diana Neves
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   8
 Pedro Horta:   8
 João Iria:   7
 Raquel Lopes:   8