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Listen(2020)

Há um mês | Drama, | 1h13min

de Ana Rocha de Sousa, com Lúcia Moniz, Sophia Myles, Ruben Garcia e Maisie Sly


Foi na 77ª edição do Festival de Cinema de Veneza que a realizadora portuguesa Ana Rocha de Sousa surpreendeu as audiências com a sua primeira longa-metragem. Listen, o objeto de tanto reconhecimento, incluindo o Prémio Especial do Júri da secção Horizontes e o Leão do Futuro – Luigi De Laurentiis, é uma produção luso-britânica que põe nas linhas da frente uma forte crítica ao sistema que rege os serviços sociais e as adoções forçadas no Reino Unido.

O enredo centra-se à volta de um casal de imigrantes portugueses em Londres, Bela (Lúcia Moniz) e Jota (Ruben Garcia), que depois de pedirem ajuda aos serviços sociais se encontram a ser o próprio alvo do seu escrutínio. Isto é, em relação ao tratamento e às condições de vida dos seus três filhos, uma dos quais, Lu (Maisie Sly), é surda e portanto acarreta outro tipo de atenção especial. Assim, o que é esperado ser uma visita rotineira acaba com uma ordem de emergência para a remoção das crianças do seu lar e, consequentemente, dos seus pais.

Apenas com uma breve sinopse, percebe-se que este não é um filme propriamente leve ou, se calhar ainda mais importante de afirmar, que nem o quer ser. A cineasta inspirou-se em casos reais, notícias com as quais se tinha deparado e emocionado, e procurou juntar toda essa frustração numa só história, ficcional, mas em diversas maneiras muito verdadeira. É neste contexto que o próprio título, Listen, compõe uma parte ainda mais integral do que o normal. Essencialmente, serve como um apelo, não só ao sistema que tanto crítica, mas também às audiências, para enfrentarem as tais hipocrisias representadas.

Com pouco mais de uma hora, sente-se uma verdadeira economia narrativa, que se destaca como o maior fator prejudicial à obra. Embora comece deste modo, a chamada “área cinzenta” das relações humanas com o mundo, com o que quero dizer, as nossas ações que podem ser imorais e erradas, mas que não deixam também de existir como consequências de outras injustiças, acabam por não ser devidamente exploradas ao longo do filme. Passa a existir uma formação mais unilateral, não tão envolvente, que toma a sua representação no desfecho do processo, numa série de acontecimentos que não são muito credíveis, ou melhor, percetíveis.

Ainda assim, há uma certa poesia que não pode ser negada. Das interpretações de Lúcia Moniz e Ruben Garcia à cinematografia, é quase possível admitir que é um filme bonito, apesar de tudo de feio que retrata. Esta qualidade surge da empatia que emite, tanto nos momentos vistos dos olhos observadores de Lu, que tenta perceber o mundo que a rodeia, como nas cenas mais emocionais, durante as quais as lágrimas correm facilmente. É uma câmara intimista, para a qual a pessoalidade é essencial.

Um bónus adicional, especial para nós portugueses, é o seu humor ocasional. Muito subtil, aparecendo só numa dose pequena, acho pertinente mencionar por parecer quase uma piada privada, exclusiva à nossa língua, expressões e, por vezes, maneiras de ser. Na verdade, é possível que passe despercebido por completo ao mero espectador internacional.

Não há dúvida que Ana Rocha de Sousa criou uma obra de valor, mesmo que longe de perfeita. Por meio da sua forte crítica ao sistema social, perde-se nesse único componente em detrimento do rumo da história. No entanto, nunca o faz ao ponto de ser esquecível e por isso o seu objetivo, o apelo do título, é cumprido.


Margarida Nabais
Outros críticos:
 Diana Neves:   7