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À conversa com Alexandra Ramires (Xá) - Entrevista(2021)

Há 14 dias | Curta, Animação, |

de Antony Sousa

 

O Cambada de Críticos esteve à conversa com a realizadora Alexandra Ramires (Xá), para falar um pouco sobre o seu percurso, as suas aspirações e também sobre o seu mais recente filme ELO.


Alexandra, desde já muito obrigado novamente por teres aceitado falar um pouco connosco e dar a conhecer o teu trabalho. Em primeiro lugar, explica-nos um pouco como começou este teu percurso na realização e também este foco maior no cinema de animação/curtas-metragens.

Licenciei-me em pintura e tirei dois cursos de animação que eram dados na FBAUL, paralelamente à licenciatura organizados pelo CIEAM - Centro de Investigação e Estudos em Arte e Multimédia.

Sinto que foi uma mais-valia ter começado pela pintura e ir adicionando variantes como o tempo, movimento e a narrativa, tão trabalhadas no cinema.

Pouco tempo depois comecei a trabalhar na produtora Sardinha em Lata onde conheci por dentro o cinema de animação, assim como algumas das pessoas com quem trabalho até hoje - Laura Gonçalves, David Doutel e Vasco Sá. Fiz parte da equipa técnica em filmes de outros realizadores e observando muito, nunca deixando outras vertentes do desenho, como gravura, diários gráficos, formação, ilustração, edição independente etc.

Em 2013, o David e o Vasco convidaram-me a mim e à Laura para trabalhar no novo projeto deles no Porto, onde acabámos por ficar até hoje a trabalhar nos projetos uns dos outros e de mais alguns realizadores.

Assim, nos estúdios de animação da produtora Bando à Parte, criou-se um terreno fértil para desenvolver um cinema de autor com uma forte componente artística, assim como uma familiaridade entre pessoas e projetos que hoje em dia compõem a BAP - animation studio, uma cooperativa de realizadores que acreditam no poder da colaboração na odisseia que é fazer filmes animação.

Quais são as tuas referências no cinema de animação?

Por motivos diferentes, aqui vão alguns nomes:

William Kentridge

Jan Švankmajer

Koji Yamamura

Jonathan Hodgson

Michaela Pavlátová

Theodore Ushev

Como e quando nasceu a história de ELO, e o processo criativo do visual das personagens?

Ao consultar um livro que é o dicionário dos lugares imaginados encontrei uns personagens que me prenderam a atenção. Era um povo de corpos muito grandes e cabeças muito pequenas. Como tal, tinham uma inteligência muito diminuta e para disfarçar a sua fragilidade usavam máscaras, ganhavam as guerras todas, nem que fosse porque não tinha inteligência para se aperceberem da derrota.

Esta descrição fascinou-me e intrigou-me. Achei as personagens muito curiosas. Comecei a ter vontade de os desenhar, comecei a pensar como seriam as personagens simétricas, como podiam ser complementadas. Assim como também me ia questionando qual a necessidade de associarmos características físicas a características psicológicas - Uma pessoa de cabeça pequena tem de ser burra?

E pensei “na minha história não vai ser assim” e fui adaptando à minha visão das coisas. Surgiram desenhos, depois ações, e por fim uma narrativa que suportasse o universo que criado. Depois de ter uma história alinhavada pedi ajuda à Regina Guimarães para traduzir estas imagens em palavras.


Pegando um pouco no lado mais técnico de ELO, como recaiu a escolha das técnicas de animação que foram utilizadas?

Um dia, a caminho do estúdio, comprei num alfarrabista uma página de um livro com uma litografia da anatomia de um cavalo. Comprei porque achei bonita e era 2 euros. Colei em frente à minha secretária e olhava para ela várias vezes durante o trabalho.

Até que comecei a copiar o desenho dos ossos do cavalo em posições diferentes e, dada a minha forte ligação à gravura, tentei que as linhas que eu desenhasse fossem brancas. Queria trabalhar a luz em vez da sombra, acho que queria fazer xilogravuras, mas na altura não tinha tempo nem recursos para o fazer. Então desenhei a lápis, digitalizei e inverti, à semelhança de algumas soluções visuais trabalhadas no Água Mole.

E, para mim, a grande surpresa, foi ver que o uso das dedadas de grafite, quando invertidas davam uma luminosidade à imagem que me fazia lembrar técnicas fotográficas como os ambrótipos ou colódios húmidos (não sei qual o nome mais correto). Depois pensei, “em movimento isto deve dar uma sugestão de película”. Tendo em conta esta base fui procurando mais referências e desenvolvendo desenhos a lápis e pó de grafite.

No que toca ao movimento, à animação em si, depois de ter desenvolvido esta estética, foi-se adaptando à lógica do frame a frame, valorizando sempre o desenho com um traço irregular.

Aqui vai um dos desenhos que fiz que serviu de mote aos visuais do filme:


A ausência de diálogo no ELO foi consciente para levar o espectador a pensar por si e a tirar as suas conclusões do que está a ver, ou simplesmente a história fluiu dessa forma e não havia necessidade de acrescentar diálogos? 

Esta história surgiu de uma metáfora visual, palavras poderiam temperar o filme, mas não eram necessárias para passar a ideia e o sentimento abordados.

Houve muita conversa, palavra e escrita nos bastidores do filme, mas nem imagino que falas poderia ter para contar o elo sem se tornarem redundantes em relação à imagem. Se optássemos por usar diálogos como ferramenta narrativa, creio que o Elo já não poderia ser uma curta. Seria um outro filme.

No entanto não queria deixar as palavras escritas deste projeto de fora, seria um desperdício, então, aproveito para vos dizer que está a ser feito um livro com os desenhos que fiz para o storyboard e textos da Regina Guimarães feitos em torno das imagens do filme.

De facto, não previ que o não ter diálogos levasse o ELO a ser um filme tão aberto na sua interpretação. Mas concordo que foi uma das consequências. Foi uma surpresa boa.

Quais foram as principais diferenças em realizar sozinha, comparativamente com o teu anterior filme Água Mole onde tiveste a colaboração da Laura Gonçalves nessa tarefa?

Realizar sozinha tem prós e contras. A solo é sempre um caminho mais solitário, dificilmente temos alguém com quem falar sobre o filme com o mesmo grau de envolvimento do que quem realiza. Este vazio sente-se quer nas decisões difíceis, onde a responsabilidade tem um peso diferente, quer nos momentos em que as coisas correm bem e vemos o trabalho reconhecido. Ter alguém com o mesmo envolvimento para partilhar responsabilidades e alegrias, dá-nos mais confiança e é bom.

Tendo sido o Água Mole o meu primeiro filme, foi vital ter a Laura Gonçalves como parceira desta aventura. Nós começamos a trabalhar juntas desde cedo, temos um percurso muito parecido, ambas estudamos nas Belas Artes de Lisboa, fomos à entrevista nos estúdios da sardinha em lata, ficámos as duas, trabalhámos nos mesmos filmes e a partir daí o nosso percurso foi quase comum. A Laura já tinha dado os primeiros passos na realização com o seu filme de estudante 3 semanas em Dezembro já tinha começado a trabalhar a ideia de usar registos reais como base para um filme. Foi super bonito ver como o Água Mole fertilizou sementes de ambas as partes e se tornou num primeiro filme de que muito nos orgulhamos.

No entanto, julgo que quando se realiza em dupla, há uma tendência a se racionalizar muito o trabalho. Para conseguirmos que a nossa visão se torne clara para quem realiza connosco, temos de conseguir explicar bem o nosso ponto de vista, o que apaga um lado mais imediato que julgo também ser importante na criação. Ao realizar sozinha, permiti-me arriscar mais, a ir em frente com ideias que nem sabia explicar, mais intuitivas.

Sendo esta a minha visão, gostava de acrescentar que também acho importante que a Laura continue a ter os seus filmes em nome individual. Atualmente, a Laura está a finalizar um documentário sobre o tio chamado Homem do Lixo, um olhar sublime sobre a sua família. Num caso destes julgo que nunca conseguiria co-realizar. Trata-se de uma visão muito pessoal sobre um meio que só ela viveu. Aqui não teria legitimidade para debater intervir.

No entanto, nos dois filmes que realizámos individualmente, só não nos juntámos na realização: A Laura trabalhou no ELO e eu integro parte da equipa técnica do Homem do Lixo.

Sinto que há filmes que pedem um processo de debate constante na sua realização e há outros que pedem este tal espaço mais solitário para nos conseguirmos ouvir a nós próprios.

Para mim, o ELO, foi um filme necessário.


O teu primeiro filme foi no formato documentário, e temos a informação que para o teu próximo filme voltarás a esse formato. O que te motiva mais no processo de criação no formato de ficção em comparação ao do documentário, e o que o documentário te dá que a ficção não pode dar?

São dois formatos de que gosto muito, mas encaro-os de maneiras muito distintas: encontro no documentário um espaço de reflexão sobre um mundo real, um mundo que me preocupa a forma como é visto por mim e pelo outro.

Aqui procuro respeitar e ouvir o retratado e encontrar pontos comuns e com isto é importante que as pessoas se sintam representadas no filme. Isto traz uma responsabilidade acrescida à realização mas também deixa a criação em segundo plano.

Ao fazer um documentário e falando-se do real, há uma necessidade grande de debater e racionalizar o filme. Daí a importância de co-realizar neste formato. Já na ficção, havendo o tal espaço maior para a criação, não corro o risco de estar a distorcer realidades, não tenho de me justificar nem de corresponder aos olhos do retratado. Porque ele não existe! Isto abre portas para um horizonte interno.

No entanto, a parte de pesquisa, recolha, entrevistas quando fazemos documentário, é algo que me preenche muito. Obriga-me a interagir com o mundo real, pormo-nos nos olhos dos outros, entender contextos diferentes do meu quotidiano, coisas que infelizmente vamos fazendo cada vez menos. Diria que no documentário olho para fora e na ficção olho para dentro.

Quais são os teus objetivos a curto e longo prazo no cinema? Algum projeto para breve que possas abrir um pouco a cortina?

O próximo projeto será um documentário onde voltarei a ter a Laura Gonçalves como braço direito e onde vamos tentar dar continuidade a uma lógica de trabalho começada com o filme Água Mole. Mas ao invés de representar uma população envelhecida no interior, a ideia agora será representar uma realidade mais jovem do litoral algarvio presa ao turismo, onde quem nos guia a história é o percebe, um marisco que no seu percurso (da apanha até ao prato) passa por diversas realidades sócio-económicas de que queremos falar.

O projeto mais a longo prazo que estou envolvida é a nossa cooperativa, onde gosto de acreditar que com o tempo se vão criando e melhorando condições de trabalho mais dignas para profissionais de animação. Vamos ver se é possível sem comprometer os filmes que fazemos. Estou recetiva a longas ou séries, mas não vou forçar se não surgirem ideias que façam sentido nesses formatos.

Que mensagem (ou mensagens) achas mais vital passar através da arte? 

Vai variando consoante o momento que vivemos, mas passa sempre por questões, políticas, sociais, poéticas e até espirituais, isto é, o que nos move e inquieta, o que nos faz querer estar vivos.

Neste momento, uma mensagem de esperança e otimismo são “vitais” para equilibrar com os dias de hoje que não me parecem ser muito luminosos.

Já com alguns prémios no bolso, e agora com os Óscares à porta, quem não poderia faltar na tua lista de agradecimentos?

O clássico, Equipa e Família. Em animação passamos muito tempo com a equipa, para uma curta são necessários cerca de 2 anos de produção onde estamos todos os dias juntos, tudo isto exige uma relação e dedicação únicas.

Eu vejo estas pessoas como grandes responsáveis por momentos inesquecíveis e de grande importância (pelo menos para mim). E claro, sempre tive encorajamento para fazer o que gosto por parte da família, temos admiração mútua pelos nossos trabalhos e isso possibilitou e alimentou o percurso que fui fazendo.

Deixa aos nossos leitores uma recomendação de um filme que aches fundamental ou que seja de alguma forma importante para ti (de qualquer género).

Tendo que dizer só um diria: Che cosa sono le nuvole do Pasolini. É uma curta que reúne de uma forma simples muito do que julgo ser a beleza do cinema.

Podem conhecer mais sobre os projectos da Xá em:

http://otrabalhodaxa.blogspot.com/






Antony Sousa
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