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Never Rarely Sometimes Always(2020)

Há 2 meses | Drama, | 1h41min

de Eliza Hittman, com Sidney Flanigan, Talia Ryder e Théodore Pellerin


A par das Leis de porte de armas, o aborto é capaz de ser o tema mais discutido dos Estados Unidos. Consenso é algo difícil de encontrar nesta matéria – e não só no outro lado do Atlântico – mas tratada com o tipo de ignorância que se encontra em terras norte-americanas, essa sim, talvez seja uma tarefa mais trabalhosa. É um tópico que é, por inerência da sua importância e valor sentimental, fácil de romantizar e dramatizar. Mas Never Rarely Sometimes Always é bastante mais do que isso.

Autumn Callahan (Sidney Flanigan), 17 anos, Pennsylvania, grávida. As leis do estado permitem o aborto, mas apenas com autorização parental para menores. Com uma vida doméstica problemática, ela e a prima (Talia Ryder) fogem para Nova Iorque, onde as leis já não implicam consentimentos alheios, a fim de prosseguir com o término da gravidez. Ao descobrir que não pode fazer tudo imediatamente, e sem dinheiro suficiente para hotéis, as raparigas vagueiam pela cidade noite adentro, um cenário que é, à falta de palavra melhor, é assustador.

Como disse, é um tema de dramatização fácil, para espremer lágrimas fáceis, com emoções fáceis. Aqui não é o caso. Eliza Hittman agarrou em inúmeros relatos de mulheres que tiveram de fazer longas viagens para conseguir ter acesso a este tipo de procedimentos, e fez-lhes uma justiça que roça o desconfortável. E não podia ser de outra maneira.

É um filme que se sustenta numa crueza inabalável, ausente de moralismos forçados ou monólogos martelados. E não me refiro apenas ao tema do aborto.

Isto porque a narrativa acontece num misto de pontos de vista. Por um lado, seguimos a história como espetadores, com apenas a informação estritamente necessária para conseguir montar as peças, no entanto, vemos também pela perspetiva da nossa personagem principal. Não no que toca às coisas que Autumn sabe, mas às coisas que Autumn sente. As dúvidas; a ansiedade de estar perdida numa cidade que não conhece, vulnerável ao terror que conhece já tão bem; a fome e a exaustão. Never Rarely Sometimes Always vive dos seus silêncios. Vive das coisas que não diz. Vive das hesitações e pausas embargadas. Nunca diz mais do que o necessário, mas mostra tudo aquilo é necessário ver.

Aborda uma enormidade de temas difíceis de enfiar numa crítica só, mas fá-lo com uma subtileza e restrição dramática impressionante. Não há focos especiais para o condicionalismo imposto indiretamente às jovens para não abortar ou para a pressão dos grupos “pró-vida” – e esta expressão tem muito que se lhe diga por si só – às portas das clínicas especializadas à prática do aborto. Estas questões estão presentes, mas existem como uma parte natural desta realidade, não necessariamente como movimentadores da trama. São os detalhes que fazem o filme, e o foco não sai do que importa, mas não esconde tudo o que o rodeia.

Pode ser dito que o filme tem um olhar desagradável para com o sexo masculino, porque tem. Praticamente todos os homens neste filme colocam as nossas raparigas em posições desconfortáveis, embaraçosas ou, e sem pudor na palavra, nojentas.

Se é justificado? Plenamente.

Sendo que as personagens que seguimos são duas adolescentes, perdidas numa cidade desconhecida, com um histórico de assédio sexual que é muito menos incomum do que aquilo que qualquer um gostaria de imaginar, Eliza Hittman não está a apontar à neutralidade, nem devia. Isto não é neutro, isto é real. E tem de ser mostrado em conformidade com a realidade dos olhos das vítimas, não de espectadores.

Eliza Hittman fez aqui um dos grandes indie dramas do ano, não me parece que isso esteja sequer aberto para análise. As duas atrizes centrais são absolutamente brilhantes e juntamente com a mão da realizadora americana, levam Never Rarely Sometimes Always a um nível de peça OBRIGATÓRIA do ano de 2020. E dos futuros também. 


Rafael Félix
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