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Coisa Mais Linda - 1ª Temporada(2019)

Há um ano | Drama, Romance |

de Giuliano Cedroni e Heather Roth, com Maria Casadevall, Pathy Dejesus, Fernanda Vasconcellos, Mel Lisboa e Leandro Lima


Não há alma que não reconheça o som de “Garota do Ipanema”, composta em 1962 durante os primórdios da Bossa Nova. Coincidentemente é também esta que, em homenagem, dá início aos episódios da mais recente série brasileira original da Netflix, Coisa Mais Linda.

Passada no final da década de 50, segue a vida de Maria Luiza (Maria Casadevall). Oriunda de uma família rica e conservadora de São Paulo, muda-se para o Rio de Janeiro para se juntar ao marido, com quem planeia abrir um restaurante. No entanto, mal chega à cidade descobre que não só foi abandonada, como roubada por este. Desesperada, reencontra-se com uma antiga amiga, Lígia (Fernanda Vasconcellos), e através desta conhece Chico (Leandro Lima), com quem mergulha no mundo do samba e da ainda recente bossa nova. Inspirada por este novo som e novas amizades com mulheres que cruzaram o seu caminho, Adélia (Pathy Dejesus) e Thereza (Mel Lisboa), decide abrir um clube de música.

Numa sociedade ainda tão machista e classicista, enquanto tenta definir a sua própria identidade, não é um processo sem os seus obstáculos. Há por isso um conflito entre o tradicionalismo e o progressismo, que fazem da série um palco para a discussão de vários temas que até hoje são relevantes como o racismo, o sexismo e outros ismos. São bem tratados e balançados, proporcionando uns momentos emotivos, de modo a que não seja demasiado superficial ou aprofundado, evitando que a série se desvie do que realmente é e se torne demasiado séria.

Mistura assim drama, romance e momentos de humor, focando-se principalmente na posição da mulher na sociedade, entrelaçando o íntimo com o profissional. Isto é de louvar, mas os diálogos por vezes soam demasiado trabalhados e ensaiados. Acaba por prejudicar a atuação, que na maior parte é levado às costas pelo carisma e química entre as atrizes principais.

A ascensão da bossa nova passa por servir apenas de pano de fundo, proporcionando uma banda sonora incrível. Apesar de claramente gravado num estúdio e sofrer momentâneas faltas na sincronização, brilha quando é dada a devida atenção e o seu aprofundamento poderia ter proporcionado à série outra mais-valia que a afastava do típico.

Cada episódio varia entre 3 realizadores - Caíto Ortiz, Hugo Prata e Julia Rezende. Apesar destas mudanças, o estilo técnico permanece igual e o mais estonteante é definitivamente a cinematografia. Cada cena tem o seu próprio encanto, sejam paisagens ou diálogos a dois, com cores vibrantes e quentes que combinam com a banda sonora e os temas retratados.

A própria altura representada confere um certo charme num aspeto que não pode deixar de ser mencionado: o guarda-roupa. Distingue-se pelo trabalho que visivelmente foi investido em cada conjunto. Se houvessem Óscares paras as séries originais da Netflix, teria uma nomeação garantida nesta categoria.

Evidentemente, Coisa Mais Linda está longe de ser perfeita. Começando pelo ritmo, que começa calmo mas para o fim toma uma brusca direção no caminho para o demasiado melodramático. Assim, por momentos assemelha-se a uma novela brasileira com um pouco mais de requinte, cujo ambiente musical e sensual salva do poço do vulgar.

Ainda assim, recomendo. Não foi difícil começar a ver por tudo o que oferece - Rio de Janeiro, final dos anos 50, Bossa Nova. Menos difícil ainda foi continuar a ver e termino com esperanças para a evolução das futuras temporadas. Afinal, não é muito comum haver uma série com um foco tão especial nas mulheres e qualquer oportunidade de apoiar isso é bem-vinda.


Margarida Nabais
Outros críticos:
 Carolina Mendonça:   8Abrir
 Diana Neves:   8