Inscreve-te e tem vantagens!

What Happened, Miss Simone?(2015)

Há 14 dias | Documentário, Biografia, Música, | 1h41min

de Liz Garbus, com Nina Simone, Lisa Simone Kelly e Roger Nupie


Miss Simone, you are idolized, even loved, by millions now. But what happened, Miss Simone? – Maya Angelou.

Começo da mesma forma que o documentário de 2015 What Happened, Miss Simone?, de Liz Garbus, começou.

Garbus, uma realizadora com uma carreira já longa, especializada em documentários, teve a coragem e ousadia de homenagear Nina Simone (1933-2003), a cantora, compositora, pianista e ativista. Devo dizer que arriscou, mas conseguiu. Querer mostrar a essência de uma alma única não é trabalho fácil. Porém, esta composição de atuações e espetáculos da cantora, gravações e imagens inéditas e entrevistas a particulares, próximos da ativista, resultou numa obra documental genial, inspiradora, que honra os anos de ouro da artista, louva a sua personalidade ímpar e presta tributo a uma forma de arte original.

O documentário ostenta atuações de Nina Simone, por vezes completas, que deixam o espetador imerso num total espetáculo, como se tivéssemos lá presentes. E articula-se com gravações de entrevistas, que sobressaltam muitas vezes em voice-over, permitindo compactar, em pouco tempo, muita informação, pautada com a leveza de uma voz forte que cobre segredos, sofrimento e uma alegria oprimida. A voz de Miss Simone.

Segue-se uma linha temporal que aborda aspetos biográficos e profissionais da vida e carreira da artista e tópicos sociais como a luta da comunidade negra pelos direitos civis durante o século passado (da qual Nina fez parte) e que chegam, infelizmente, intemporais até nós, nos dias de hoje. 

Nina Simone nasceu Eunice Waymon, viveu uma infância solitária quando começou a aprender a tocar piano e música clássica; enfrentou uma adolescência dura, enquanto era discriminada; escondia a violência doméstica durante o casamento com Andrew Stroud. Nina apodera-se do documentário de Garbus quando as suas cartas e diários são expostos no mesmo. É aí que conseguimos ver o seu sofrimento, que conhecemos o lado obscuro e de luto da artista. Porque em palco tudo mudava. Nina Simone tinha postura séria e natural em palco, adorava e respeitava o seu público. Era ousada e desavergonhada, viveu uma vida honesta tanto quanto a deixavam. Tinha uma aura alienada do mundo e simultaneamente atenta aos olhos que a rodeavam, odiavam ou amavam.

Entre os dramas da sua vida amorosa e pessoal, o cansaço e correria de uma fama insustentável, Simone envolveu-se na luta pelos direitos civis, tendo cantado no enterro de Martin Luther King, tendo feito amizade próxima com várias figuras desta luta e composto uma música intitulada Mississípi Goddam. A música que outrora era a sua grande paixão e refúgio, era agora a sua arma contra o mundo racista, xenófobo e machista. Nina começou a afogar-se numa raiva perigosa ao longo da sua carreira, face a si própria, à política, à família e ao país; e no final da sua vida já era diagnosticada com bipolaridade apesar de ter vivido sempre com depressão. Foi escrava da sua paixão, mas livre nas suas composições; a música foi para Nina uma moeda de duas faces. Foi prisioneira na sua própria liberdade. Nina Simone gritava por ajuda nas suas músicas (por ela, pelos negros, pelos oprimidos); mas o mundo só lhe respondia: continua a tocar, não podes parar. O peso de uma leveza interior que o cansaço não a deixava apagar.

A presença e fama de uma mulher negra durante o século XX, no plano do jazz internacional não passou despercebida. Porém, ficou uma artista incompreendida para os seus contemporâneos e continua incompreendida hoje. Nina Simone foi revolucionária na música. Ela foi brilhante como ativista e como mulher à frente do seu tempo.

Este é um documentário exclusivamente sobre Nina Simone, muito bem montado e editado, que pretende só transmitir uma mensagem de Nina para o espetador:

I think that the artists who don´t get involved in preaching messages probably are happier. But, you see, I have to live with Nina, and that is difficult.  – Eunice Waymon

Não revelar nada sobre a morte da pianista foi a principal homenagem de Garbus à artista: porque Nina vive até hoje. Nina Simone é imortal.

…I've got life, I've got my freedom

I've got life

I've got the life

And I'm going to keep it

I've got the life.

- Nina Simone, Galt MacDermont


Diana Neves
Outros críticos:
Nenhum autor votou nesta crítica.