Inscreve-te e tem vantagens!

Alice Nova Iorque e Outras Histórias(2020)

Há 3 meses | Comédia, Drama, | 2h0min

De Tiago Durão, com Sofia Mirpuri, Naomi Livingstone, Troy Tripicchio e Andrea Ferro Madrid.


“(Oscar): Heart, mind or soul?

(Rita): Excuse me?

(Oscar): Well, in my experience, there are three kinds of wounds that give a person that look in their eyes. Yours seems to be from the soul.”

 

Estreada nas salas de cinema portuguesas no passado dia 20, Alice Nova Iorque e Outras Histórias é a mais recente obra filmográfica independente do jovem realizador, Tiago Durão. Rodada maioritariamente nos Estados Unidos, esta é uma comédia dramática que nos conta a história de Alice (Sofia Mirpuri), filha de um veterano de guerra (José Medeiros) alcoólico, que após a morte trágica e prematura do seu namorado, decide deixar a sua família disfuncional e partir para Nova Iorque em busca de melhores condições de vida. Grávida, desempregada e a viver em casa de uma amiga de infância, Ana (Madalena Mantua), a portuguesa rapidamente se começa a aperceber da distância entre a fantasia do sonho americano e a realidade.

 

É através do paralelo entre o livro infantil do século XIX escrito por Lewis Caroll e o conceito alemão Kitsch, que surge o título original - Tales from the Rabbit Hole: A Curious Kitsch Novel. Esta é uma analogia inteligente e criativa, que acaba por servir de fio condutor para a obra: Alice é uma jovem curiosa que cai inesperadamente na caótica Big Apple, a nossa toca do coelho, onde, ao contrário do que esperava, o movimento citadino não gira só em torno de oportunidades e sonhos. Não, em vez de chapeleiros loucos, tartarugas falsas e rainhas de copas, neste país das maravilhas comanda o capitalismo e o passo acelerado, os relacionamentos vivem-se estoicamente e irrompe uma nova nacionalidade em cada esquina. É desta encruzilhada de narrativas diferentes e figuras fúteis que se espreme a estética kitsch, empregue aqui num tom leviano, mas que acaba por decorar eficazmente o panorama do filme.


Mantendo uma estreita relação de proximidade com as obras do famoso cineasta nova-iorquino, Woody Allen, este é um daqueles que não engana no que toca ao estilo, apesar do espaço que dispõe para múltiplas interpretações. Contando com onze personagens principais, todos eles interligados e todos eles numa fase especial de catarse, é difícil não pensarmos automaticamente em filmes como To Rome With Love (2012) e Manhattan (1979). Por sua vez, também as personagens individuais como Rita (Naomi Livingstone), Frank (Zachary Guttman) e George (Michael R. Piazza) mantém características semelhantes a outros protagonistas de Woody Allen, como Jasmine (Blue Jasmine, 2013), Alvy Singer (Annie Hall, 1977) e Abe (Irrational Man, 2015), respetivamente. No entanto, isto não é uma surpresa para quem viu Alice Nova Iorque e Outras Histórias, além das duas menções feitas ao neurótico e controverso americano durante os 120 minutos da longa metragem, o criador Tiago Durão, já havia afirmado em entrevista: “Eu cito Shakespeare, Edward Albee, assim como, é evidente, Woody Allen e o Altman nessa questão das histórias cruzadas. Eu colo-me muito aos outros autores, como diria o Picasso – os grandes autores copiam, os geniais roubam.

 

Fazendo proveito de um guião bem pensado, elaborado pelo realizador em parceria com António Rodrigues e André Tavares, esta produção codirigida com a intérprete Sofia Mirpuri, encontra-se a nível do cinema nacional atual, acima da média. Tem vários elementos e propósitos importantes que passam com facilidade para a audiência, entre eles uma crítica social à materialização das relações humanas e à política de imigração de Trump, uma representação simultânea da portugalidade e da multiculturalidade e um contraste satírico entre o american dream e a verdade. É um filme que, se acrescentasse algo de novo, teria um impacto maior pela qualidade do argumento e fluidez do discurso.

 

Há que fazer notar que se encontra a anos-luz da liga dos gigantes: existem diálogos de menor significância que se estendem por vários minutos desnecessariamente; outras cenas mais estimulantes acabam por cair num ritmo demasiado frenético para acompanhar; a banda-sonora embora deliciosa, não se encontra em harmonia com o restante áudio do filme, o que acaba por se tornar incomodativo; as paisagens nova-iorquinas estão mal aproveitadas, desempenhando assim, um papel quase irrelevante numa suposta “ode” à cidade; e a gravação cinematográfica é fraca, conferindo-lhe um aspeto de vídeo amador.

 

No entanto, comparar esta com as obras do cinema a que estamos habituados, é um ato injusto e contra produtivo. Estamos a falar de um filme com muitos atores principais, que não pôde ser concebido em Portugal por falta de recursos, conciliação de horários e pessoal e, que ao mesmo tempo, careceu de apoios nos Estados Unidos. Com um orçamento de 16 mil euros e uma equipa de cerca de 30 integrantes (valores muito reduzidos), conseguiu-se fazer uma produção entre dois países, promovida em vários festivais internacionais, com atores de várias partes do mundo. Claro que esta está longe de ser uma película que “mude vidas”, mas certamente é uma prova de que o cinema português está vivo e recomenda-se. Os jovens estão determinados a pô-lo no mapa!

 


Mostrando o outro lado do espelho, Alice Nova Iorque e Outras Histórias é um retrato desenfreado da sociedade moderna em formato bilíngue, onde impera a vontade individual e a superficialidade e se sufoca o romantismo. Repleto de autocomiseração, reflexões filosóficas, traições e momentos de humor, este é um filme que apesar de ficar aquém das suas potencialidades, vale a pena ver. Nem que seja pela curiosidade de ver como seria um filme do Woody Allen, se ele fosse português e menos perverso.


Carolina Mendonça
Outros críticos:
Nenhum autor votou nesta crítica.