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The King of Staten Island(2020)

Há 17 dias | Comédia, Drama, | 2h17min

De Judd Apatow com Pete Davidson, Marisa Tomei, Bill Burr, Bel Powley e Ricky Velez


Estar preso na adolescência é uma fase cada vez mais comum, um aspeto irónico de uma sociedade que empurra os jovens a se tornarem adultos o mais rápido possível sem os meios para atingir esses objetivos. Uma ideia que Apatow sempre explorou nos seus enredos semi-biográficos que transmitem as suas experiências reais e as de comediantes como Amy Schumer ou neste caso, Pete Davidson. Histórias inspiradas em momentos da vida dos quais as suas personagens são forçadas a crescer.  

The King of Staten Island (2020) percorre esse tema numa perspectiva desafiante. Scott (Pete Davidson), incapaz de lidar com a morte do seu pai, continua a viver com a sua mãe Maggie (Marisa Tomei) sem qualquer ambição realista. Quando Maggie conhece um novo companheiro romântico, Scott depara-se com uma nova etapa da sua vida da qual ele não quer iniciar. Um filme acerca das dificuldades do ator em lidar com as suas doenças mentais e o processo de luto do seu pai, um bombeiro que faleceu durante os eventos do 11 de Setembro, numa missão de salvamento.

Davidson é um comediante que expõe a alma, no melhor e no pior e esse estilo de humor negro seco que ele disponibiliza é encapsulado aqui, com uma honestidade crua, de uma pessoa que usa a dor na sua pele. Scott encara o sofrimento como uma piada, sem conseguir analisar profundamente este, numa representação humana, que compreende o processo complicado, duradouro do luto e o desejo pelo familiar.   

Como habitual nos filmes de Apatow, o elenco destaca-se com performances divertidas que não desviam demasiado da personalidade dos comediantes, com excepção da incrível, Marisa Tomei. A fotografia difere-se do comum, capturando a raiva e instabilidade da personagem principal, sem distrair do enredo. Um sinal da ambição crescente de Apatow que, ainda assim, permanece num ambiente seguro de realização.

A sua associação a um comediante cujo humor consegue ser confuso na sua execução torna o tom volúvel e adquire um desconforto apropriado para esta história, apesar de por vezes, o ambiente não ser indicativo de onde a narrativa pretende chegar e tardar o seu tempo até aproximar-se do seu objetivo. O argumento inteligente captura os fortes e baixos dos dois comediantes que, devido à sua teimosia em se perder em cenas sem um caminho concreto, resulta numa longa duração, que para muitos será injustificada. 

Uma das várias relações que compõe o seu núcleo emocional é a de Scott com Kelsey (Bel Powley). Ao contrário de Scott, ela tem ambições ligadas à sua cidade e de certa maneira a si própria, encontrando a beleza de Staten Island, contudo, consciente da sua capacidade de ser melhor. As memórias heroicas do seu pai colocam a personagem sentindo-se como um fracasso por comparação. Esses lembretes habitam a cidade inteira. O seu desejo de uma vida sem esforço é apelativo para alguém que se sente confortável no fracasso pois acredita que é tudo aquilo que consegue atingir. Falhanço é atraente quando o medo de arriscar pode resultar numa confirmação das inseguranças iniciais. Fugir dessa certeza é permanecer nessa inércia.   

Uma piada que se tornou comum acerca de Judd Apatow é que ele devia contratar alguém para editar o seu trabalho. Comédias raramente atingem 2 horas, enquanto a sua filmografia ultrapassa constantemente essa duração. Podemos acusar Apatow de indulgência, no entanto, não consigo deixar de admirá-lo por insistir na sua forma de criar um filme. Ele adora as suas personagens, e quer passar o máximo de tempo com elas. É esse amor genuíno que causa uma duração prolongada e um estilo familiar de storytelling, por isso mesmo, em qualquer outra circunstância este enredo de sair duma zona de conforto com uma direção trivial seria caso para crítica. Aqui funciona como a base da sua realização e a finalidade desta história.

King of Staten Island não é o melhor de Apatow, todavia não deixa de ser um filme divertido e uma obra mais madura. A reação final depende do quanto longe queremos acompanhar estas personalidades e as suas histórias. Do quanto a audiência consegue apreciar Scott como uma personagem para poder engraçar com as suas ações. Esta é uma narrativa sobre a mágoa de ter de seguir em frente, em que Apatow e Davidson compreendem que a prisão da adolescência atinge um tempo limite, e há que correr no próprio ritmo, quer seja crescer, processar o luto ou fazer um filme. Pode ser uma viagem tumultuosa, longa e familiar, mas eu fico satisfeito por chegar ao destino. 


João Iria
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