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The Green Mile(1999)

Há 30 dias | Crime, Drama, Fantasia, | 3h9min

De Frank Darabont, com Tom Hanks, Michael Clarke Duncan, David Morse e Sam Rockwell


“Não pude evitar. Tentei voltar atrás, mas era tarde demais.”

Entendida ao abrigo de diferentes contextos, esta expressão pode ter vários significados. E foi com esta expressão que John Coffey (Michael Duncan) foi apanhado a chorar, agarrado a duas meninas mortas e condenado à morte por homicídio.

Frank Darabont, depois de The Shawshank Redemption (1994), volta a adaptar um romance de Stephen King e realiza The Green Mile, novamente um filme em ambiente prisional, com uma história incrível, e dois protagonistas fenomenais.

Em 1935, John Coffey, um homem singularmente grande, é acusado de violar e matar duas irmãs e, por isso, condenado à morte e levado para a prisão onde Paul Edgecomb (Tom Hanks) é responsável pela equipa de guardas que coordena o corredor de morte, o tal apelidado de “green mile”. Aí, Paul vai descobrir que John não é apenas um milagre em si, mas é capaz de fazer milagres.

O filme começa no presente e prossegue com três horas através de um imenso flashback, em 1935, para contar a história do milagre de John aos olhos de Paul.  

A longa-metragem acontece num tempo ainda demarcado pela segregação racial: vêem-se sobretudo presos negros, a serem escravizados em trabalhos prisionais, com as suas históricas roupas às riscas brancas e pretas, e há uma situação em que John é tratado de “nigger”; é óbvio que ainda hoje a segregação racial infeta as sociedades atuais, e é sabido que nas prisões ainda se usam os presos para trabalho ilegal e que os negros são, em várias situações quotidianas, maltratados. Nesse aspeto, o filme esforçou-se, através de pequenas coisas, por refletir ainda estes males do mundo atual.

A pena de morte executava-se na cadeira elétrica, e não era bonito de se assistir. Infelizmente, a pena de morte ainda existe nos Estados Unidos, e o filme Just Mercy (2019) retrata casos de homens no corredor da morte, alguns por crimes que não cometeram, e como essa pena é cruel e uma autêntica barbaridade, que foi ao longo dos anos tentando ser travada e abolida por vários indivíduos. Em The Green Mile assistimos à execução de três homens, momentos no filme que o realizador fez questão de estarem bem assentes, de ser acompanhado todo o processo, do lado do preso, do guarda e do povo.

A fotografia e a produção não são aspetos que estivessem perfeitos aqui, apesar de se notar uma predominância dos tons acastanhados e amarelados em contraste com o preto dos fatos dos guardas, e o facto de as personagens serem brancas, com características humanas, e o herói do filme ser negro, com uma essência divina.

Este filme de três horas tem o seu tempo precisamente dividido, e o mais único nesta longa é que não se concentra apenas no seu propósito principal, pois durante as duas primeiras horas, o filme entretém-nos ao ponto de explorar naturalmente cada ponto da história, e no final percebemos que está tudo perfeitamente ligado. Aquelas duas horas não enrolaram o assunto, tiveram, sim, um intuito de nos guiar. Foi um encaixe exato entre todas as partes do lego, feitas à medida de uma ironia graciosa, uma revolta dolorosa e uma bondade inquebrável. É este o caráter do filme e são estas as emoções que as personagens nos trazem.

Tocando nesse elemento, as performances de Tom Hanks, Michael Duncan e Sam Rockwell (como Wild Bill) foram excelentes em todas as cenas. Duncan transpareceu uma compaixão inocente, Hanks mostrou uma postura profissional e Rockwell arrasou com uma crueldade imunda.

Só o facto de em três horas o realizador ter conseguido envolver-nos no filme, em relacionarmo-nos com ele por uma infeção urinária, a despedida de um animal de estimação, o lidar com um “pain in the ass” no local de trabalho… mostra a quão majestosa esta obra é. Somos assim incluídos no filme deixando a nossa posição de espetador. Contudo, é com a colocação da personagem de John que a fantasia acontece e nos mostra que nessa componente é difícil não ser só um espetador romântico. Porque milagres não acontecem em qualquer lado. Muito menos no corredor da morte.

Se há algo que devo criticar no filme, é a ausência de uma maior incredulidade e um choque maior que não se manifestaram nos personagens quando viram as qualidades mágicas de John, tendo em conta que vivem num mundo aparentemente sem magia. Houve várias cenas que a essência sobrenatural de John se mostrou e os personagens ou ignoraram ou partiram para fazer coisas diferentes antes de se questionar com o suposto impossível que tinha acontecido.

Acreditem, no seu decorrer o filme faz-nos chorar, rir, ficar enojados, ficar incrédulos, ficar zangados, e todas as suas peças vão ter uma razão de ser no final. Nem todas as histórias acabam por fazer justiça, mas nem todas as histórias acabam mal. Lembrem-se disto no final.

John Coffey tem razão: custa, mas tem que se ver a crueldade escondida no mundo, todos os dias. Porque os milagres não acontecem. Pelo menos, todos os dias. E no fim, melhor ou pior, todos temos o nosso “green mile” a percorrer. 


Diana Neves
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   9