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The Vast of Night(2020)

Há 2 meses | Drama, Mistério, Sci-Fi, | 1h31min

de Andrew Patterson, com Sierra McCormick, Jake Horowitz, e Gail Cronauer


É instantâneo o transporte para o universo de The Vast of Night, e a coerência com que foi construído nunca nos deixa sair dele, nem nos permite querer fazê-lo.

Uma noite numa pequena cidade chamada Cayuga no final dos anos 50, enquanto grande parte dos habitantes estavam num jogo de basquetebol local, Everett (Jake Horowitz) apresenta um programa de rádio, e Fay (Sierra McCormick), a telefonista, atende as chamadas locais. E numa dessas chamadas um som estranho e não identificável surge, e inicia um mistério crescente que irá levar estas duas personagens para uma experiência que toma proporções astronómicas

Bate tudo certo neste filme, Andrew Patterson (realizador e co-argumentista) sabia exatamente o que queria, tanto visualmente como no que retirar do elenco, como da manipulação das nossas emoções como espectadores. No primeiro terço do enredo somos gentilmente convidados a conhecer Everett e Fay em sequências bastante longas com cortes subtis que criam a ilusão de estarmos num estado contínuo de acompanhamento in loco dos acontecimentos daquela noite na até então pacata e previsível Cayuga. Seguimos grande parte dos diálogos atrás das personagens em movimento, como se tivéssemos em nossa posse o manto de invisibilidade de Harry Potter, e cuidadosamente perseguimos os protagonistas com a distância suficiente para os perceber, mas também para que não percebam que estamos ali. No segundo terço os planos variam de estáticos com Everett e Fay sentados em locais diferentes, para a total escuridão, e a edição rápida fazendo lembrar Whiplash (2014). O interessante deste ato é que começa aqui a ser cozinhada a intriga e o ponto de interrogação ganha metros a cada minuto, até lhe acrescentarmos um ponto de exclamação que conclui o pensamento de "o que é se está a passar afinal?!". E tudo isto através de uma lição de less is more da parte dos atores Sierra e Jake, que reproduzem na perfeição a nossa reação ao ouvirmos os relatos de Billy (voz de Bruce Davis), realistas que chegue para nos fazer criar a nossa própria teoria da conspiração. 

No último terço de The Vast of Night o enredo oferece aquilo que pede, que é um afunilar das dúvidas até se tornarem certezas, trazendo essas certezas consigo os momentos de maior tensão e ação. Sem que em algum momento saia do contexto delicadamente tão bem construído até então. É uma das grandes vitórias deste filme, uma profunda coerência.

Sabemos que o mundo anda cada vez mais depressa, qual acendedores de candeeiros em O Principezinho, parece que tudo tem que acender uma luz a cada minuto, e talvez isso faça com que este filme possa ser considerado lento na escada de tensão que se pede numa história de mistério e sci-fi, mas está tudo feito com um bom gosto tal, e uma simplicidade tão refrescante no género, que nos esquecemos que se trata de ficção e temos a sensação de estar numa fogueira a ouvir histórias sobre vida inteligente fora do planeta Terra, histórias que nos fazem repensar nas nossas crenças e/ou dúvidas, e nos provoca um misto de entusiasmo com a sensação de pelos a levitar na nuca. O monólogo de Mabel Blanche (Gail Cronauer) é uma masterclass de como escrever algo difícil de acreditar em algo tão natural e sombrio, acrescentando ainda o ingrediente essencial de empatia, fruto do maravilhoso trabalho da atriz, dando-lhe em poucos minutos várias camadas para lá do que está na superfície.

The Vast of Night foi uma tremenda e agradável surpresa, uma nova referência dentro do género, que mais uma vez confirma que não são precisos orçamentos monstruosos e efeitos de última geração para atrair público, tal como provaram Ex Machina (2014) ou Predestination (2014) ou Coherence (2013), alguns exemplos que tenho como referência num passado recente. Sinceramente é natural que algumas pessoas não fiquem completamente fascinadas, mas considero-o um dos filmes do ano pela sua consistência. Não duvido que Andrew Patterson tem rigorosamente o filme que queria, e quando se controla o desfecho, e quando se define tão bem aquilo que se quer e essa definição tem alta qualidade estética, de conteúdo, e marca pessoal de autor, juntando a um excelente casting para um elenco perfeito, o resultado só pode ter grande impacto. Portanto não duvido que vamos ouvir e ver muito de Andrew Patterson no futuro, e dos atores Sierra McCormick e sobretudo Jake Horowitz, que é brilhante e praticamente não tem carreiro fora do teatro. Isso irá mudar assim ele queira.


Antony Sousa
Outros críticos:
 Pedro Horta:   8
 Sara Ló:   6
 João Iria:   9
 Alexandre Costa:   8