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Saint Maud(2020)

Há um mês | Drama, Horror, Mistério, | 1h24min

De Rose Glass, com Morfydd Clark, Jennifer Ehle e Lily Knight.


Um dos destaques da edição deste ano MotelX e uma das mais esperadas produções britânicas de 2020, Saint Maud pareceu pouco consensual à saída do Cinema S. Jorge. Os burburinhos eram diversos e inquietos, como se ninguém tivesse particular certeza do que achar, poucos minutos após terem levado com a chapada emocional que Rose Glass decidiu pregar-nos pela cara acima. Esta inquietude é, principalmente num filme de terror, um bom presságio.

Maud (Morfydd Clark), uma jovem que recentemente abraçou fervorosamente o catolicismo por razões pouco claras, é destacada para prestar cuidados paliativos a Amanda Kohl (Jennifer Ehle), uma antiga dançarina e coreografa que viveu a mais pura definição de vida boémia e liberal antes da doença a atirar para casa. Maud vê na sua paciente uma alma “perdida” nos seus luxos e excessos, à espera de ser salva, a tempo da redenção antes do seu fim. No entanto, o ponto até onde Maud irá para atingir isto é tão dúbio como as suas intenções.

Rose Glass faz no seu primeiro filme, aquilo que muitos realizadores não conseguem após anos e anos a bater nas mesmas teclas. Porque embora a narrativa seja focada e precisa, o que não é estranho, dado que o filme não atinge sequer os 84 minutos, passeia-se por entre os clichés e os tropes do género, agarrando em diversos destes elementos e virando-os de pernas para o ar constantemente, mudando os tons da história o suficiente para nos deixar num irrequieto estado de êxtase até ao último frame. Literalmente último frame.

Este mesmo frame é já imagem de marca dos filmes distribuídos pela A24, mas as inspirações e referências cobrem quase opressivamente Saint Maud, desde momentos-chave visuais que cruzam Thomasin de The Witch (2015) e Regan McNeil de The Exorcist (1973), até ao mood e desalento de Don’t Look Now de Nicolas Roeg. Mas talvez estes dois primeiros sejam aqueles que mais se aproximam daquilo que Rose Glass aqui apresenta, num guião que num momento é sobre as formas como a fé distorce o espírito daqueles que não têm outro alento que não a de algo maior que elas próprias, como no outro muda para uma macabra história de uma mulher a encontrar o seu espaço num mundo no qual Maud não tem capacidades emocionais para se encaixar.

Não parece um filme inteligível para ninguém que esteja o minimamente atento a ver, mas também parece um filme que pode oferecer mais e mais, não só das próprias nuances das performances e dos ângulos peculiares em que Glass escolhe pôr a câmara, mas também retirar diferentes leituras e mudanças de estado empático ao longo de várias visualizações. Dito isto, pode ser colocada a questão da forma como Saint Maud pede para investirmos numa personagem que pode muito facilmente ser entendida como vil, egoísta e possivelmente violenta. No entanto, Rose Glass consegue estranhamente fazer-nos compreender o peculiar desequilíbrio de Maud de forma a levar-nos mais para uma terna pena do que propriamente uma irritação comichosa. Talvez pela própria ternura com que a realizadora olha para a sua personagem, inegavelmente corrompida, mas ignorantemente inocente dos seus atos. Há mais compreensão do que julgamento no guião e é esse o ingrediente especial que eleva Saint Maud a um lugar mais interessante.

É um filme que tem envelhecido muito melhor na minha cabeça do que eu estava à espera e parece-me um filme obrigatório para o ano de 2020 ao dia de hoje. É quase intocável em termos técnicos, mas mais do que isso, desafia os géneros e as categorizações a eles colocadas e não se posiciona em nenhum sítio do ponto de vista emocional de forma enfática o suficiente para deixar quem quer que seja confortável em qualquer momento do filme. 

E é exatamente por isso que funciona tão bem.


Rafael Félix
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