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The Haunting of Hill House(2018)

Há 2 meses | Drama, Horror, Mistério, |

de Mike Flanagan, com Michiel Huisman, Carla Gugino, Henry Thomas, Elizabeth Reaser e Oliver Jackson-Cohen


Nos últimos anos, Mike Flanagan tem-se destacado como um dos mais observados realizadores de terror da atualidade. A partir de filmes como Gerald’s Game (2017) e Hush (2016), o cineasta construiu um nome para ele próprio, chegando até a comandar a sequela de The Shining (1980), Doctor Sleep (2019). Apesar de tudo, um dos seus maiores sucessos até agora foi decididamente The Haunting of Hill House, uma mini-série produzida para a Netflix em 2018, que rapidamente se tornou num êxito.

A história é uma adaptação do livro de Shirley Jackson do mesmo nome, um clássico do género. No entanto, deste pouco pede emprestado e as suas personagens são transformadas numa família de sete. Esta é encabeçada por Olivia (Carla Gugino) e Hugh Crain (Timothy Hutton/Henry Thomas), que se mudam com os filhos - Steve (Michiel Huisman/Paxton Singleton), Shirley (Elizabeth Reaser/Lulu Wilson), Theo (Kate Siegel/Mckenna Grace), Luke (Oliver Jackson-Cohen/Julian Hilliard) e Nelly (Victoria Pedretti/Violet McGraw) - para a mansão conhecida como “Hill House”, com o intuito de a renovar e vender. Como é óbvio, todo o tipo de experiências bizarras começam a ocorrer, culminando numa noite cujos acontecimentos não são totalmente compreendidos. Anos depois, as crianças tornam-se em adultos e, mesmo longe da tal casa, esse verão ainda os assombra.

De modo a percebermos a totalidade do mistério, é feita uma divisão entre o passado e o presente que flui alternadamente, de uma maneira quase hipnótica. Por outras palavras, podemos começar um episódio com a versão mais nova de uma personagem e a próxima cena já ser com a mais velha. Devido à coerência de movimento e de temas entre sequências, isto nunca se torna confuso e salienta-se até como um dos melhores aspetos da série.

Aliado ao facto de cada membro da família Crain ter direito ao ser próprio capítulo, por assim dizer, o espetador nunca se sente alienado do que está a ver. Logo, cada episódio tem o seu charme único, mesmo que uns o tenham naturalmente mais que outros. De igual forma, cada ator tem o seu momento, mesmo que também uns mais que outros.

Não quero com isto dizer que há falta de um elemento comum. Muito pelo contrário, é essa dinâmica familiar a cola de toda a obra, o pilar que Mike Flanagan quer erguer. Seja através do episódio gravado em longos takes, do anterior (sim, esse) ou ainda do final, a sua realização deixa isso claro o suficiente e por todos os fantasmas e sustos, foi o que ficou mais comigo. Isto é, não propriamente o que aconteceu, mas o que ficou, o que surge em círculo e os continuou a assombrar. Essa linha ténue entre o real e o psicológico que luta não só no cérebro de cada personagem, mas também entre estas.

Evidentemente, isso já é dizer muito, uma vez que a atmosfera palpavelmente sombria nunca nos deixa, nem no último minuto. Dos sobressaltos mais manifestos às figuras escondidas no fundo, é a ambivalência destes que cria um ambiente tão completo, com a ajuda da cinematografia, do design da grande mansão e de uma banda sonora que consegue ser tão sinistra quanto melancolicamente triste.  

Pode-se ter esticado um pouco nas suas 10 horas de duração, mas isso não lhe custou a qualidade do “bingeable”, considerada tão importante nos dias de hoje. O puzzle ainda não tinha sido acabado de ser montado e nem o chegou a ser na sua totalidade. Para mim, é ainda melhor essa permanência lateral do desconhecido, uma presença constante. Os cantos podem-se ter perdido, mas a imagem principal está lá. E assim, The Haunting of Hill House fez para mim o que muitas outras séries não conseguiram – oferecer um princípio, meio e fim com o qual fiquei satisfeita.


Margarida Nabais
Outros críticos:
 Rafael Félix:   6