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The Virtues (Minissérie)(2019)

Há um mês | Drama, |

de Shane Meadows, com Stephen Graham, Niamh Algar, Helen Behan, Frank Laverty e Mark O'Halloran.


The Virtues é um drama tão bruto – no sentido emotivo da palavra - e tão honesto que foi difícil por vezes manter os olhos no ecrã, com todas as verdades cruéis que nos são atiradas para cima sem dó nem piedade. Mais difícil ainda, é tentar convencer alguém a ver esta que é, provavelmente, a melhor minissérie que vi nos últimos anos.

Realizado por Shane Meadows – This Is England (2006) –, uma força do neo-realismo social britânico, seja em cinema ou em televisão, The Virtues apresenta-se como um dos seus projectos mais pessoais até agora. Segundo Meadows, este é o primeiro – e último – trabalho que faz desde que lida com as memórias outrora reprimidas, dos seus próprios traumas que sofreu em criança (haja coragem).

Os primeiros momentos de The Virtues estabelecem automaticamente o tom sombrio da série, mas não nos preparam DE TODO, para o que irá acontecer ao longo de 4 episódios. Joseph (Stephen Graham), é introduzido sem palavras, com um olhar melancólico e lágrimas prestes a cair pela face, e com algo preso na sua mente, que o corrói por dentro.

Inconsolável depois de se despedir da sua ex-mulher Debbie (Juliet Ellis) e do seu filho Shea (Shea Michael-Shaw), que vão mudar-se para a Austrália, Joe é empurrado para uma crise que tentou evitar a todo o custo: uma recaída.

“Yeah... I’ll be fine. I’ll be ok”

O primeiro episódio pode parecer confuso, nunca é claro o que está a acontecer, muito porque não nos é dada a papinha toda (e ainda bem), mas também porque estamos a partilhar a desorientação de Joseph. Assim, embarcamos com Joe numa viagem para a Irlanda, para encontrar a fonte da sua instabilidade e enfrentar os seus demónios. Existem pistas sobre a sua natureza, através de breves flashbacks fragmentados e indecifráveis das suas memórias de infância, com imagens cobertas de cores desconfortáveis e distorcidas, quase como uma cassete VHS home-made com péssima qualidade, sem nunca revelar demasiado – Perfeito.

Há um gatilho que é accionado pelo confronto directo com o passado, brilhantemente carregado pela perfomance de Graham, que é mais do que convincente no seu papel como Joseph. Uma interpretação tão ousada e poderosa, de uma alma em sofrimento, de um homem em guerra consigo próprio, completamente no caos e desesperado por redenção. A dor transborda cada cena através dos gestos, olhares, expressões e silêncios de Graham. Igualmente fantástica está Niamh Algar, na sua personagem Dinah, também ela cheia de virtudes mascaradas de defeitos.

A escrita de Jack Thorne e Meadows, a sua realização e o talento abundante dos actores, faz com que todas as cenas sejam entregues com uma precisão e delicadeza que são raras de ver e mais importante ainda, de sentir. O ritmo é lento, as cenas são longas e arrastam-se, os diálogos estão recheados de pausas e reacções milimetricamente cronometradas. Mas são as conversas mundanas, as personagens imperfeitas e cheias de falhas que nos fazem ficar agarrados e genuinamente preocupados com os seus conflitos interiores.

À medida que os episódios avançam e as ligações entre as personagens se formam, a atmosfera fica cada vez mais tensa e intensa, mas nunca através de clichés melodramáticos. A acumulação de sentimentos, emoções, dores e arrependimentos, faz com que The Virtues atinja um pico onde o ar quase não é respirável, quase como se fosse possível cortar o ambiente à faca.

A conclusão difícil desta história tem os 30 minutos mais intensos e emocionalmente desgastantes que alguma vez já vi, tão bem sonorizados por PJ Harvey. Está tudo errado nestes últimos momentos, e ao mesmo tempo está tudo certo. Há um final claro, mas agridoce.

Não é fácil ver The Virtues. É deprimente, angustiante e profundamente perturbador. Senti-me completamente impressionada e fascinada, mas ao mesmo tempo com medo do que poderia sair deste conto que transcende a definição de drama. A paciência é uma virtude, e garanto-vos que The Virtues vai recompensar qualquer um que a veja até ao final.

*Escrito com antigo Acordo Ortográfico.



Sara Ló
Outros críticos:
 Raquel Lopes:   10
 Alexandre Costa:   9
 João Iria:   10