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Game Night(2018)

Há 2 anos | Comédia, Crime, Mistério | 1h40min

de John Francis Daley e Jonathan Goldstein, com Jason Bateman, Rachel McAdams, Kyle Chandler, Sharon Horgan, Billy Magnussen, Lamorne Morris e Kylie Bunbury


Game Night foi realizado pela equipa John Frances Daley e Jonathan Goldstein, co-argumentistas de Horrible Bosses (2011) e Spider-Man: Homecoming (2017). Há um pequeno eco presente destes filmes que nos apresentaram anteriormente, mas ainda assim, Game Night consegue ser mais hábil na sua comédia que Horrible Bosses.

O filme tem como protagonistas Jason Bateman e Rachel McAdams como Max e Annie, um casal competitivo, amante de jogos de tabuleiro, que mantém uma noite de jogos regular com Kevin (Lamorne Morris), Michelle (Kyle Bunbury) e Ryan (Billy Magnussen). Juntos, são atirados para uma noite de mistério na casa do charmoso e bem-sucedido irmão de Max, Brooks (Kyle Chandler), que passa a ser o anfitrião de uma das noites de jogo. Brooks anuncia que, em vez dos habituais jogos de tabuleiro e quizzes de cultura geral, o grupo vai fazer parte de um jogo live-action. Alguém vai ser raptado e os restantes terão de decifrar as pistas para resgatar o amigo em perigo e ganhar o jogo. Só há um pequeno problema: as coisas tornam-se reais terrivelmente depressa. Aparentemente os crimes não são falsos e isso força-os a investigar.

You’re not going to know what’s real and what’s fake.

Se já viram o fantástico The Game (1997), ou outros filmes em que uma aventura se torna estranha e assustadora, irão antecipar alguns, mas não todos os twists de Game Night, e irão apreciar a forma como o argumentista e os realizadores os ligam à psicologia das personagens e à estrutura do filme, como uma jornada de descoberta pessoal, bem como narrativa. O guião de Mark Perez oferece estes twists de uma forma satisfatória, mantendo plausibilidade suficiente para prevenir que o filme se torne uma absurdidade.

A maioria da comédia é situacional, as personagens (exceto Ryan) não são estereotipadas, mas apenas um grupo de homens e mulheres mesquinhos e super-competitivos, a reagir à intensidade do suposto “jogo” em que se encontram. Conseguiram construir um filme em que a tensão vai escalando lentamente e as personagens têm decisões estúpidas, mas claras e com motivação.

Os atores cumprem o seu papel com habilidade e profissionalismo – especialmente Bateman e McAdams, que se complementam tão graciosamente que realmente parece que estão casados há anos. Jason Bateman tem piada e Rachel McAdams também, mas sobretudo têm piada juntos. Ambos partilham uma calorosa e brilhante química. McAdams é uma atriz de comédia com uma aptidão natural, que pouco tem sido chamada para fazer comédias desde Mean Girls (2004), e tem optado por romances e dramas como Notebook (2004), The Time Traveler’s Wife (2009) ou Spotlight (2015).

Além dos protagonistas, as personagens secundárias são engraçadas, quando têm oportunidade de o ser. Mesmo assim, era preferível convivermos mais com todos eles e conhecê-los melhor do que ver perseguições de carros e lutas de bar. Existem também alguns aspetos irrealistas, como o facto de algumas personagens conseguirem suportar ferimentos físicos que eram capazes de matar ou incapacitar pessoas na realidade, apenas para tentarem retirar um sorriso do público.

Um dos grandes problemas com o híbrido ação-comédia-thriller, é sem dúvida a falta de balanço entre os géneros, sendo que por norma, os risos tornam-se prioridade acima de tudo o resto. O plot de crime pode parecer retirado de um filme para crianças, graças ao enredo e às suas personagens caricaturadas, mas há mais esforço aqui para destacar os elementos não-cómicos. Há algumas escolhas estéticas extremamente inteligentes (como os efeitos utilizados que fazem com que as ruas dos subúrbios pareçam parte de um jogo de tabuleiro), a violência está bem definida e a ação é surpreendentemente bem encenada. É um progresso comparando com desconfortável excesso de incompetência neste género de mash-ups, que já suportámos em demasia nestes últimos anos.

O que é mais frustrante em Game Night é o quão dependente o enredo é na estupidez das personagens. Rirmo-nos de pessoas simplesmente por serem burras é um impulso péssimo por parte da audiência, mas a culpa é do argumento. Contudo, Game Night é um bom entretenimento para adultos a partir de uma certa idade. Há uma perseguição de carros, um incidente violento que leva uma uma cirurgia improvisada hilariante e uma festa com referências a Eyes Wide Shut (1999) e Fight Club (1999), mas tudo é entrelaçado com um subtil comentário sobre crescer/envelhecer, desapontamentos, romantismo condenado e rivalidade entre irmãos.

Game Night acaba por ser uma comédia para casais. Muitos casais ou grupos de amigos vão identificar-se com a história. É competente, consegue obter algumas risadas e tem performances que se destacam pela positiva. No entanto, nenhuma destas surpresas irá lançar este filme para a História das comédias, mas por enquanto serve bem o seu propósito, nem que seja como consolação para as más comédias que andam por aí.


Sara Ló
Outros críticos:
 Rafael Félix:   6
 Pedro Quintão:   7
 Alexandre Costa:   7
 Rafaela Boita:   7