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The Color Purple(1985)

Há 2 meses | Drama, | 2h34min

de Steven Spielberg, com Danny Glover, Whoopi Goldberg, Oprah Winfrey


Quem nunca passou fins de semana a ver a saga do Indiana Jones ou nas férias de Natal a colar-se à televisão para ver, pela milionésima vez, The Adventures of Tintim (2011)? Quem nunca chorou à noite a ver War Horse (2011) ou E.T. the Extra-Terrestrial (1982)? E se continuar a enumerar podemos chegar ao Shindler´s List (1993), Catch Me if You Can (2002), Saving Private Ryan (1998) ou The Goonies (1985). Sim, Steven Spielberg já conta com uma carreira de bons anos e ainda melhores êxitos.

Nesta crítica regresso aos filmes dos anos 80 e aos primeiros filmes de Spielberg. Mais um sucesso realizado com grande mestria, mas, desta vez, não privilegia cenas de ação ou histórias fantásticas.  Neste drama entramos na sociedade do início do século XX, onde Celie (Whoopie Goldberg) é uma menina que sofre abusos sexuais do pai (dos quais resultam dois filhos e que são dados a outra família em segredo), que a maltrata, insulta e despreza. Nettie (Akosua Busia) é irmã de Celie. As duas são inseparáveis, apoiam-se e protegem-se ferozmente contra tudo e todos. Porém, o pai oferece Celie para casar com Albert (Danny Glover), um homem que é tanto ou mais desonroso que o pai das meninas e que, depois de tentar violar Nettie, proíbe-as de se encontrarem. A partir daí, Celie fica à espera de receber cartas da irmã, que jurou que só a morte as separaria. E inicia uma busca pela sua dignidade com a ajuda de duas mulheres que desafiam um mundo de noções patriarcais.

Problemas como o incesto (abuso das meninas pelo pai), racismo (Sofia,  uma das mulheres negras, foi presa depois de agredir um homem branco em resposta à sua violência com ela), sexismo (Albert acusa Celie de ser feia, pobre, negra e mulher), abuso (violência doméstica, física e psicológica) são retratados neste drama logo de rompante, até que se torna insustentável assistirmos ao enredo sem nos sentirmos revoltados.

As cenas são acompanhadas com o voice over de Celie, e as cerca de duas horas e meia de filme conseguem transmitir, com habilidade e talento, quarenta anos da vida da personagem.  Este é um drama com o qual choramos, mas opostamente, rimos quando as personagens se tornam meio toscas e pitorescas como se fosse para achar piada com a desgraça das suas vidas.

Toda a realização e produção não poderiam estar melhor, num filme com uma temática tão pesada, o decorrer do mesmo é levado com tamanha calma e levidade, sobretudo quando temos em conta o silêncio ensurdecedor que se manifesta em grande parte da longa. Isto chega a irritar-nos, porque durante o filme só nos apetece gritar, por não haver algo ou alguém que faça justiça àquelas pobres almas, mesmo a TODAS, vítimas ou não. Isto é, tal como a produção, as interpretações foram esplêndidas e inspiradores, mas tão penetrantes que nos levam também a sujeitarmo-nos ao tipo de vida que as personagens levavam, ao sentimento de querer sair, de nos sentirmos presos e nos zangarmos com o conformismo que conduzia as suas vidas.

O filme não dá apenas magnitude e reverência à vida de Celie, mas também à de Nettie, Shug (Margaret Avery), Albert, Sofia (Oprah Winfrey) e tantas outras personagens, cujas histórias e problemas de vida nos surgiram, foram questionados e depois solucionados no seu devido tempo e colocado nas cenas certas, o que dá uma riqueza insubstituível ao filme.

Cada mulher neste drama é uma fonte de inspiração, energia e garra, que luta pela sua vida, seja contra homens brancos racistas ou homens negros abusivos. No entanto, mais do que brilhos do movimento feminista, trata-se de querer alcançar a felicidade e a dignidade, e só Celie é a encarnação da resistência em pessoa.

Este é um filme sobre todos nós, os nossos antepassados, os nossos ideais, que ultrapassam fronteiras terrestres, raciais, de género e temporais. Porque, infelizmente, muitas situações do filme não ficaram nos anos 20 ou 30, continuam hoje. 


Diana Neves
Outros críticos:
 Alexandre Costa:   8