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Begotten(1989)

Há 2 meses | Fantasia, Terror, | 1h12min

de E. Elias Merhige, com Brian Salzberg, Donna Dempsey e Stephen Charles Barry,


Quando falamos de E. Elias Merhige normalmente falamos dele como realizador de Shadow Of the Vampire (2000), com Willem Dafoe, e um par de videoclips para Marilyn Manson mas muito mais do que isso ele foi o escritor, realizador e produtor de Begotten, uma obra de culto tremenda que surgiu duma experiência de quase morte vivida pelo próprio numa idade tenra. Estamos a falar dum filme de terror experimental que se distância do leque já cheio de penumbra e free gore pelo qual o gênero é acompanhado e, por incrível que pareça, sendo ele datado a 1990, ainda é uma lufada de ar fresco nestes tempos que vivemos em que o instantâneo parece se ter tornado uma virtude maior que a paciência.

Preocupado em explorar o mítico e não em contar uma história, de feição surreal e grotesca, Begotten, reflete o seu pensamento na morte duma religião, o abuso maravilha feito por nós seres maravilha à mãe natureza e o niilismo inerente ao ser humano.

Merhige usa esta pérola cinematográfica para descontextualizar a perspetiva, o contexto, a fotografia e a música. Esta sensibilidade de Merhige estende-se aos atores, indo contra a importância do individuo como uma proposta superficial e de marketing para a venda dum filme e tornando o que os atores são, personagens, simbologias e portadores da mensagem. Aqui passamos a ter cenários, sujeitos e testemunhas do contexto espacial e temporal que acabam por tornar obsoleto a individualidade de cada elemento, fazendo com que estes elementos trabalhem de forma comunitária para o fundir total da obra.

Begotten é fascinante até na forma como a fotografia é tratada. Foi filmado usando um método de enorme contraste de preto e branco conhecido como dot chiaroscuro que viu os seus dias nascer na pintura renascentista em quadros como The Adoration of the Child (1619/1621) de Gerard Van Honthorst e The Calling of Saint Matthew (1599/1600) de Caravaggio. Um berro fotográfico com uma sonoplastia tão simples onde ele preocupou-se em dar um batimento cardíaco e, de aflição e constante ansiedade, esse detalhe foi conseguido de forma tão limpa e confiante pois ele tornou esse batimento cardíaco incessante pelo decorrer da longa metragem.

Bruto, aterrorizante, estranho são poucos dos adjetivos que talvez consigam raspar a superfície do que este filme é. Begotten, uma obra prima do cinema underground de culto que dá um arrepio intelectual desde a primeira palavra à última, lembrando que, a palavra é um som em forma de comunicação. Palavras, sons, imagens podem ferir suscetibilidades e com muita facilidade se pode ficar desconfortável e inquieto se não aceitar o que está ali para ver, como uma performance de Vito Acconci, é necessário, por vezes, ser-se tenaz.

Um objeto artístico cuja intenção nunca foi comercial mas sim existencial. Não é um filme para ser tratado com um significado singular mas sim como uma experiência, é um filme que não tem capacidade de ser justificado ou, simplesmente, sinto que não o devemos fazer pois este é uma fonte profunda de pensamento humano. 


André Pinto
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