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Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan(2006)

Há um mês | Comédia, | 1h24min

de Larry Charles, com Sacha Baron Cohen, Ken Davitian e Luenell

 

A tragédia do 11 de Setembro alterou os Estados Unidos da América para sempre. Esta realidade presentemente esquecida devido aos constantes incêndios metafóricos que somos obrigados a apagar em 2020, é presenciada na cultura durante a década de 2000, onde depreendemos na sua música, cinema e ambiente político o impacto causado. Sitcoms em Nova York removeram qualquer imagem que recordasse o evento; o ambiente em entretenimento evitava qualquer menção e aqueles que arriscavam usavam o seu tempo para apaziguar a população e criar um rastilho de otimismo no futuro, através de patriotismo. Anos depois, verificamos que o país aprendeu todas as lições erradas em relação a este acontecimento.  

Iniciar uma crítica de uma das comédias mais obscenas dos últimos tempos, com o 11 de Setembro pode estranhar aqueles que no meio das piadas de genitais, desconsideraram o aspeto satírico de um filme que encapsula a xenofobia e o nacionalismo americano que reinou durante este tempo, capturando o realismo e a honestidade de um país a viver sobre medo, raiva e ignorância, somente com uma câmara e um comediante.   

Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan é o título perfeito quando um crítico tenta aumentar o número de palavras do seu texto e também para uma comédia mockumentary realizada por Larry Charles e co-escrita e produzida pelo ator Sacha Baron Cohen. Este, que veste a personagem principal de jornalista fictício do Cazaquistão, percorrendo os Estados Unidos para aprender a melhorar o seu país. Maioritariamente improvisado através de vignettes criadas por Cohen e a sua equipa de argumentistas, Borat foca-se principalmente em entrevistas com pessoas que acreditam que esta representação grotesca é realmente um jornalista estrangeiro.

Um sucesso estrondoso crítico e de bilheteiras, com uma nomeação ao Oscar de Melhor Argumento Adaptado, esta comédia foi o objeto de ampla controvérsia, sendo banida na maioria dos Países Árabes e desencorajada de ser assistida pelo governo Russo e do Cazaquistão. Uma polémica insistente que estendeu-se até ao tribunal, onde os produtores e a distribuidora receberam processos daqueles que foram apanhados durante as filmagens em palavras comprometedoras.

A sua origem foi na série Da Ali G Show (2000-2004), onde Cohen criou as suas primeiras personagens que mais tarde viriam a ser adaptadas para o cinema. Este jornalista burlesco foi concebido num estado pouco maduro, onde o humor provinha principalmente da performance e do absurdo da situação, ainda desprovido do comentário social e político desafiante que iria permanecer em todos os trabalhos do comediante britânico. 

Antes de mais, perdoem-me pela longa crítica, pois Sacha Baron Cohen foi um dos vários comediantes a formar o meu sentido de humor na juventude e Borat é uma das melhores comédias que alguma vez assisti e 14 anos depois permanece igualmente hilariante, perspicaz e absolutamente lendária nos extremos que Cohen atingiu dentro da personagem para provocar efeitos cómicos, numa combinação de slapstick e comédia kitsch que confronta, selvaticamente, aspetos tabus culturais.

Um comediante capaz de tudo para provocar uma gargalhada, Cohen é o mestre responsável pela grandeza deste filme. Desde o seu improviso que usa a comédia ofensiva e incendiária para causar indignidade, à sua tenacidade como artista judeu a aderir ao extremo de antissemitismo para expor o absurdo destes preconceitos e provocar efeitos hilariantes e assustadores na audiência, ao demonstrar a natureza assustadora da ignorância que reside na espécie humana, pronta a revelar-se com o mínimo de conforto possível.

Apesar de ser uma das minhas comédias favoritas, existem questões problemáticas na sua execução, como o uso de um país existente, algo que Cohen aprendeu no filme The Dictador (2012) pois esta mistura de paródia e realidade corre o risco de ofuscar o humor como factual. A prioridade do ator em criar comédia acima de tudo implica também a possibilidade dos sujeitos capturados fugirem da sua intenção satírica.

Borat reside numa balança perigosa, onde a qualquer momento pode perder a sua ironia ao reforçar os estereótipos e a intolerância que tanto pretende satirizar. Esta longa-metragem apelou também a uma audiência que não compreendia o seu comentário político (Quem diria que um filme com uma cena de wrestling entre dois homens nus, seria subtil?) e a sua crítica passou despercebida para aqueles que citavam as falas sem as compreenderem. Blazzing Saddles (1974) sofre do mesmo problema. Sátiras devem ser questionadas, no entanto, neste caso acredito que é, infelizmente, um fator da intolerância, que encontra reforço em qualquer lugar.

Uma crítica irónica para uma narrativa sobre um homem com as aprendizagens erradas, pois a sua instrução provém do professor errado, num país com uma cultura revestida de fobias e entusiasmo ignóbil. As crenças da personagem divertem pelo seu absurdo, partilhando opiniões homofóbicas, sem perceber que teve relações sexuais consensuais com homens. A sua ignorância surge da inocência de alguém que não compreende o básico de outras culturas. Borat tem esta mentalidade porque aprendeu num “país” onde não existe uma educação superior em questões sociais, o pormenor hilariante é comprovar que o mesmo situa-se no autoproclamado “Melhor país do Mundo”.

O argumento explora essa ingenuidade frágil que caminha com a perversão propositada residente nas mentalidades intolerantes, retratando a inevitável ascensão de certas figuras políticas (que deviam permanecer na sanita, onde nasceram) espalhando as suas palavras numa população de animosidade e expandido as suas figuras numa distanciada da educação necessária.

A realização transmite isto através do humor contra as ideologias reacionárias daqueles que realmente existem. Neste sentido, Borat é um filme sobre como continuamos a aprender as lições erradas dos eventos que sucedem nas nossas vidas. Os Estados Unidos olharam para uma tragédia e combateram esta com xenofobia, racismo e um exagerado patriotismo obtuso aos problemas do seu próprio país, uma consequência que permanece sobre a presidência de uma bola de gás que encara o mundo como um reality show.

Em 2020, Borat regressa com uma sequela, num timing apropriado para um período em que o mundo parece reverter cada vez mais para o autoritarismo. A primeira longa-metragem exibiu as consequências de abrir os braços à ignorância e ao perigo de criar conforto em espaços para mentalidades retrógradas crescerem e se apoderarem até dos desinformados. Mascarando a farsa humana com humor rude, cuidadosamente refletido para conseguir os resultados chocantes e tristes da humanidade, aqui testemunhamos o coração dos Estados Unidos da América, é absolutamente hilariante e repleno na sua pestilência pútrida.  


João Iria
Outros críticos:
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