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13th(2016)

Há 6 meses | Documentário, Crime, | 1h40min

De Ava DuVernay com Melina Abdullah, Michelle Alexander, Angela Davis e Cory Booker


“Neither slavery nor involuntary servitude, except as a punishment for crime whereof the party shall have been duly convicted, shall exist within the United States, or any place subject to their jurisdiction.”

A citação acima é o texto literal da décima terceira emenda à Constituição dos Estados Unidos da América. Aquele que parecia o fim a uma era de terror, ódio, trauma (e outros tantos adjetivos de carácter negativo), foi apenas uma forma encontrada de perpetuar um dos maiores problemas sociais que tanto afeta os Estados Unidos como o resto do mundo.

Neste documentário, há uma análise profunda sobre a relação entre a criminalização da população afro-americana e o crescimento astronómico do sistema prisional americano. Professores, ativistas, políticos juntam-se neste trabalho para analisar a evolução legislativa da sua nação, os seus fundamentos, as artimanhas, a corrupção e, acima de tudo, a constante perseguição étnica.

É impossível prever a evolução desta longa-metragem. Aquilo que achamos que sabemos acaba por ter uma dimensão maior do que aquela que alguma vez imaginámos. Vemos um país que se alimenta, maioritariamente, da exploração de minorias. Olhamos para leis que, por escrito, podem parecer muito assertivas, mas no final de tudo, só têm um objetivo. E, foi isso o que mais me chocou ao ver este trabalho. O ciclo vicioso, profundo e problemático que o sistema judicial dos Estados Unidos apresenta é imensurável.

Por vezes as palavras seca, aborrecimento, tédio vêm associada aos documentários. Muito pela maneira de como os factos são expostos, a organização é feita e o tema em si. E todas essas características, em nenhum momento se verificam aqui. De uma maneira perfeita e, por ordem cronológica, assistimos a uma crescente bola de neve. O tempo passa, os factos tornam-se cada vez mais chocantes, a incredibilidade do espetador também aumenta. Na sua maioria, não houve a tentativa de suavizar factos por nenhuma das partes. Os entrevistados, tanto democratas como republicanos, ativistas, conservadores, todos conseguiram admitir os erros pelos quais o país passou e continua a perpetuar (porque não sabe viver doutra maneira).

Ava DuVernay consegue aqui um trabalho incrível, ao trazer um documentário necessário, uma exposição esmagadora da rotina em que os EUA estão inseridos. Uma realidade que não pode ser negada, porque contra factos não há argumentos. Mesmo que o facto seja acompanhado por uma opinião política - o que acontece pelas partes entrevistadas -, ninguém acaba de ver este trabalho a pensar que está tudo bem.

13th é um documentário de pura reflexão. Uma crítica clara e direta a um país construído na base da escravatura e na exploração de outros homens. Um país que não esconde a opressão que faz perante as suas minorias. Uma história que se repete de uma maneira muito pouco subtil, mas permitida perante a lei. Qualquer que seja a posição política que cada um defende, se tivermos um palmo de testa e um pouco de noção, encontramos sempre grandes defeitos na sociedade estadunidense. Para uns pode não ser tão chocante, para outros pode trazer emoção e revolta, mas é necessário desconstruir esta ideia de que os Estados Unidos da América é o país dos sonhos e da liberdade.


Raquel Lopes
Outros críticos:
 Rafael Félix:   10
 Diana Neves:   9
 Margarida Nabais:   10